Clarice acorda para tomar café e, assim que desce as escadas de sua casa, se depara todos os dias com o chão colorido, uma verdadeira obra de arte. É um lembrete constante de que valeu a pena investir nesse detalhe tão especial durante o projeto de reforma do espaço. Quando a obra começou, em 2016, a cozinheira pensou que o chão poderia ser feito de um dos seus materiais preferidos, então ela sugeriu para as arquitetas do escritório CR2 Arquitetura: Cecilia Reichstul, sua irmã, e Clara Reynaldo, sócia de Ceci na época. “Quando estávamos conversando sobre o andar de baixo, joguei a ideia: e se o piso fosse desenhado e de granilite? Estava crente que ninguém ia levar em conta, mas as meninas animaram e começaram a orçar”, ela lembra.

Depois de analisarem as várias maneiras para fazer a ideia sair do papel, Clarice Reichstul e as arquitetas chegaram ao nome da pessoa que daria vida aos desenhos: o amigo e ilustrador Andrés Sandoval. Durante os estudos do artista, ele encontrou um livro sobre Lina Bo Bardi e o projeto da arquiteta para o Sesc Pompeia. Na proposta inicial de Lina, o chão da avenida central, por onde os visitantes entram e caminham até os diversos ambientes do centro cultural, seria feito de pedras brasileiras. E na casa de Clarice, o piso do andar inferior foi pensado como uma releitura dessa ideia. O processo foi tão detalhista que precisou de 40 dias para ficar pronto. “Todo dia eu vejo esse chão e, nossa… que maravilha! Valeu cada perrengue da obra”, Clarice brinca.

Casa com jardim, arquitetura e reforma com alma, piso de granilite
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A relação com as cores também impactou na área externa da casa. A moradora define a seleção colorida de “fachada CMYK”, uma referência ao padrão de cores usado no design gráfico para a impressão de livros, revistas ou qualquer arte visual que tem como destino final o papel. Clarice sempre gostou da combinação dessas bolinhas coloridas que aparecem nas bordas das impressões: “Encasquetei que queria uma fachada com essas cores e que, se olhada de determinado ângulo, desse para ter todas elas à vista, como um jogo para entendidos, uma piada particular”. Outra parte importante do charme desse espaço é o verde que cerca a casa, deixando tudo ainda mais aconchegante, dentro ou fora do lar.

O clima de conforto se espalha pela casa e Clarice aproveita para curtir momentos em família com seu filho Benjamim e com os pets: o cachorro Miró, e os gatos Speedy e Harpo. Tem hora que o café da manhã acontece sob o solzinho do quintal, mas de vez em quando é a mesa da cozinha que ganha destaque. Inclusive, esse espaço também conta muito sobre a história da moradora e teve um papel importante durante a reforma.

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Clarice é dona do Paca Polaca, restaurante e mercearia de comida judaica. Porém, a profissão dela nem sempre esteve associada à culinária. A antiga carreira no cinema não estava mais fazendo sentido e o ato de cozinhar, que a princípio era apenas um momento de prazer, se mostrou um novo caminho. “Mas a cozinha aqui em casa é mais do ramo da convivência do que do trabalho. O bom é que tenho os livros logo ao lado para pesquisar, então fica um misto de trabalho e prazer, o que me lembra sempre porque eu fui me meter nessa”, ela brinca.

A estante em que ficam esses livros e muitas outras relíquias foi ideia da irmã, Ceci. “Foi muito legal o processo de pensar o projeto com ela! Temos gostos bem diferentes, mas em muitos momentos eles se complementam”, a moradora conta. Quando Ceci sugeriu as prateleiras de alvenaria que vão de uma ponta à outra, passando pela cozinha até a sala, Clarice ficou na dúvida, mas embarcou na proposta. A decisão foi acertada e proporcionou uma parede que vai mudando de função de acordo com os ambientes. Na cozinha, os copinhos com fotos 3×4 decoram de forma despretensiosa, da mesma maneira como o hábito de colecionar essas fotografias começou. Já na sala, a estante organiza os discos e todos os objetos decorativos que Clarice foi colecionando ao longo dos anos.

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Um dos itens favoritos é uma placa de cabeleireiro que ela e o ex-marido compraram no Camboja. Os dois inventaram que eram colecionadores de placas e conseguiram comprar o item que nunca esteve à venda. A viagem rendeu uma decoração única, e Clarice afirma que o estilo da casa foi surgindo de modo similar, sem pensar na estética e sim na história. Para ela, o mais importante é que cada espaço seja como uma extensão de sua pessoa. A coleção de vinil, os objetos curiosos e as obras de arte ajudam nessa função, mas a questão está mesmo no patamar das sensações e memórias: sentir que o lugar é a materialização de sua personalidade faz dessa casa um lar.

“Eu gosto muito de olhar conjuntos cheios de detalhes, de poder ficar examinando cada coisinha, cada copinho, cinzeiro, pedaço de brinquedo quebrado… também gosto da história de cada objeto, de quem foi, por onde passou, de onde veio. Gosto de olhar para eles e retraçar o caminho que tomaram até aqui. Me dá uma sensação de que eles também contam a minha história de algum modo”.

Texto por Natália Pinheiro | Fotos por Maura Mello