Como manter os pets ativos na quarentena

Dicas de uma especialista para melhorar a qualidade de vida dos bichinhos nesse período

A casa é muito mais do que o lugar em que moramos. É onde nos conectamos com nossa família e amigos; onde contamos nossa história por meio dos objetos; onde podemos descobrir novos hobbies e também um jeito diferente de lidar com o tempo. É onde a vida acontece – agora mais do que nunca. E já que nosso lar é um universo tão amplo, falar apenas de decoração não faz tanto sentido, por isso criamos essa coluna para abordar o morar com um novo olhar, pensando em tudo o que podemos fazer para conquistar mais bem-estar. Vamos ficar em casa?

O que vem à sua mente quando pensa no aconchego do seu lar? Para quem tem pets, é impossível não remeter essa sensação à companhia de seus animais, sempre tão presentes nas atividades mais corriqueiras. É por isso – e por lembrar que os bichinhos também são moradores importantes em nossas casas – que não podíamos nos esquecer deles nesse momento em que estar em isolamento se tornou um ato de segurança e amor, mas inevitavelmente acabou bagunçando a rotina de muitos tutores e animais por aí.

Se antes os passeios pelas ruas e a interação com outros bichos eram parte fundamental dos dias de seu cachorro, ou se então seu gatinho estava habituado a desfrutar da casa sozinho enquanto você trabalhava fora, pode ser que as mudanças na rotina provoquem efeitos comportamentais nesses animais. E é justamente para aliviar as consequências negativas disso, como a ansiedade nos pets, por exemplo, que conversamos com a Luiza Cervenka: bióloga e especialista em comportamento de cães e gatos. Vem conferir as dicas dela!

Para quem tem cachorro:

Sem poderem sair para passear, os cães acabam ficando mais ansiosos. O que fazer para contornar isso?

Luiza: Vários comportamentos estão sendo alterados por conta dessa pandemia. Seja porque as pessoas estão mais angustiadas, seja porque elas estão com a rotina também alterada, ou porque o cachorro tinha uma rotina de passeio e agora está ficando somente em casa, ou com menos tempo de soneca, por exemplo. Um dos sintomas disso é a ansiedade, que vem de dois fatores: um é a diminuição de atividades e o outro é a própria ansiedade do tutor.

Uma alternativa legal é fazer exercícios cognitivos, que gastam energia do cachorro. Eu brinco que é como uma equação do segundo grau: não é nada absurdo, mas também não é simples. É algo que exaure, exige que a gente fique empenhado, focado, e depois vamos querer deitar, fazer alguma coisa mais tranquila. O cachorro precisa dessas atividades — sejam elas envolvendo alimentação ou não. Um exemplo é o ‘comedor lento’: colocar a alimentação dentro de uma caixa de ovo, de uma garrafa PET ou de um rolo de papel higiênico, e deixar o cachorro encontrar isso destruindo, rolando e vendo o que pode fazer para solucionar o problema e adquirir esse alimento. Isso é uma das coisas fundamentais a serem feitas em todas as refeições dos cachorros a partir de já!

Outra coisa que é muito bacana é o próprio treino para ensinar o cachorro a sentar, deitar, dar a pata, ficar… além de alteração de espaço físico: se o cachorro está acostumado a ir da sala para o quarto através de um corredor que é sempre igual, podemos colocar garrafões, tampinhas, fazer labirintos, colocar mesa, cadeira, bambolê, cabo de vassoura, coisas que ele tenha que pular, passar por baixo ou desviar para chegar ao objetivo. Isso é uma atividade cognitiva para os cachorros e algo que pode ajudar bastante a entretê-los dentro de casa nesse momento. 

Como manter o animal ativo mesmo dentro de casa?

Luiza: Outra forma de manter o animal ativo é a utilização de escadas. Se porventura você tem escada em sua casa, perfeito! Você pode se sentar no andar de cima e brincar de jogar a bolinha para o cachorro descer e subir os degraus. Isso é uma ótima forma de gastar energia. Agora para as pessoas que moram em apartamento, o ideal é praticar as atividades mencionadas na resposta acima – dentro de casa – ou checar se o condomínio permite passeios curtos nas áreas comuns do prédio.

Seria legal dar algum “agrado” ao bichinho para compensar a falta de passeio?

Luiza: Para compensar essa falta de passeio, o ideal é fazer as atividades cognitivas mesmo. Como a gente tem uma tendência a associar agrado à alimentação, acabamos oferecendo a comida que o cachorro ama, um petisco gostoso, essas coisas. Mas, se nesse momento em que estamos em casa o tempo inteiro ficarmos oferecendo esses agrados, vamos aumentar a ingestão calórica e isso vai facilitar muito a obesidade, principalmente porque ele não está fazendo os mesmos exercícios de antes. Ainda assim, os agrados que a gente der podem ser oferecidos dentro de dispositivos em que o cachorro demore mais tempo para acessar o petisco, assim ele fica mais satisfeito e a gente continua dando a quantidade ideal de alimentação por dia — nunca a mais e também não a menos. Qualquer dúvida sobre a quantidade e a qualidade da alimentação deve ser questionada ao médico veterinário do animal. 

E o que é melhor NÃO fazer? 

Luiza: Muitos cachorros estão ficando sedentários e o tutor acha fofinho, mas não é bom que o cachorro tenha muito sono ou fique frustrado. A gente precisa estimular os animais dentro da nossa casa, então o que não devemos fazer é esquecer do cachorro, deixá-lo dormindo na caminha e achar isso legal. Outra coisa que também não se deve fazer é expor o cachorro a outras pessoas ou mudar absurdamente sua rotina. Por exemplo, se ele ficava dentro de casa e agora eu quero colocá-lo para dormir na varanda, ele não vai se adaptar com essa mudança brusca. Se ele estava acostumado a dormir na cama, deve continuar dormindo na cama.

Também é importante não escutar fake news. Tem muitas notícias falsas sobre coronavírus e animais e, por isso, o número de abandonos tem aumentado. Não abandone os animais, não escute fake news. Escute os médicos veterinários, escute o Ministério da Saúde, escute os órgãos competentes para falarem sobre isso.

Vale adotar práticas adicionais de higienização para os cachorros? 

Luiza: Só o banho a seco já é bem legal. Algumas pessoas acabam exagerando nessa higienização e passando produtos muitas vezes tóxicos para os animais, tanto na casa quanto nos próprios pets. Então, sim, higienização é ótimo, mas não é necessário dar mais do que um banho a cada 10 ou 15 dias nos cães. Banhos com frequência excessiva podem ter um efeito rebote e até causar problemas de pele, então não podemos exagerar. A limpeza de patas e focinhos deve ser feita somente com produtos específicos para cachorros, não adianta fazer solução que viu na internet ou usar produtos convencionais de faxina. Tudo isso tem que ser levado muito em consideração. Hoje as principais questões que levam um animal a uma clínica veterinária de emergência são intoxicação por produto de limpeza e alimentação errada.

E quem decidiu adotar um cachorro em plena quarentena? Alguma recomendação de como adaptá-los à casa?

Luiza: A primeira coisa é oferecer um ambiente agradável para o cachorro, e isso não quer dizer que seja um ambiente agradável para o ser humano. É preciso entender, por exemplo, quais são os brinquedos que fazem o cachorro brincar. Outra coisa importante é respeitar o espaço dele: determinar qual vai ser esse espaço — pode ser uma casinha, uma caminha — e respeitá-lo. É bacana trabalhar com a parte de treinamento dentro de casa e não esquecer de incentivá-lo a fazer as coisas sozinho, sem precisar 100% da nossa presença, porque não vamos estar em casa o tempo inteiro, principalmente quando acabar a quarentena, então precisamos ensiná-los agora a ficar muito bem sem a gente.

Para quem tem gato:

Os gatos também sofrem com a mudança de rotina? O que é recomendado para eles nesse período?

Luiza: Muito, principalmente em relação à soneca. Eles podem ficar irritados porque os tutores andam pela casa o dia inteiro e eles não conseguem tirar tantas sonecas quanto antes. E é importante manter essa rotina: então veja onde o gato se sente mais confortável para dormir e evite ficar circulando por ali durante a soneca. Além disso, os gatos também sincronizam o sono deles com o nosso, então a partir do momento em que a gente está mais em casa, eles vão estar mais ativos, e isso também é muito importante para facilitar brincadeiras: estimular os gatos a brincar de caça, com peninhas, varinhas e ratinhos de brinquedo vai mantê-los mais ativos e saudáveis.

E se os gatos estiverem com comportamento alterado? Qual é a melhor solução? 

Luiza: Buscar profissionais especializados em comportamento de gatos, pessoas que realmente entendam a espécie e não trabalhem com gatos como se fossem cachorros pequenos. É importante descobrir o que está causando esse comportamento alterado, se é algo que já existia e agora foi potencializado ou se é algo novo, pois nós também estamos com menos paciência e o que antes era tolerável pode passar a ser angustiante. Ou seja, precisamos buscar os profissionais para entender o porquê dessas alterações e não ficar humanizando o comportamento tanto de gatos, quanto de cães.

Como evitar o sobrepeso tanto de gatos quanto de cachorros? 

Luiza: É aquela conta básica: ingestão calórica adequada e exercícios adequados. Se eu estou diminuindo a quantidade de exercícios, eu tenho que diminuir a quantidade de calorias ingeridas. Essas informações calóricas estão na própria embalagem da alimentação, ou também pode ser conversado com o médico veterinário. Além disso, precisamos sempre lembrar que qualquer petisco, qualquer biscoito e qualquer coisa que eu dou além dessa quantidade de alimentação prescrita, é caloria a mais que estou dando. Se a quantidade de caloria for a mais do que prescrito e a quantidade de exercício for a menos, o cachorro e o gato vão engordar, não tem para onde correr, é matemática.

Fotos por Alessandro Guimarães; Rafaela Paoli; Maura Mello; Gisele Rampazzo; Leila Viegas e Luiza Florenzano | acervo Histórias de Casa

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