Um apartamento cercado de muito verde, uma gata nascida em Nova York passeando pelos cômodos e móveis com recordações de família: essas são algumas das características especiais do cantinho da Tiê Higashi, um lar cheio de cores e estilos na Vila Mariana. Arquiteta de formação, ela trabalha com curadoria e pesquisa em arte, o que já diz um pouco sobre a sua escolha por esse prédio dos anos 50 projetado pelo arquiteto Eduardo Kneese de Mello. “Adoro que ele extrapola o espaço do lote: a mata que o rodeia faz dele uma joiazinha no meio da cidade”, conta Tiê, que descobriu o apê com a ajuda da imobiliária Refúgios Urbanos.

O clima de sossego vai além do apartamento duplex que separa o ambiente social da área mais privativa dos quartos. Cada andar do prédio possui circulação própria, criando a impressão para Tiê de morar em uma casa com acesso direto para a rua. Todos os detalhes foram pensados por ela para o apê se transformar em um lugar de aconchego e conforto – realmente, um refúgio: “Eu me sinto todo dia viajando para uma casa de campo. Até esqueço que lá fora existem carros e buzinas”.

A curadora de arte se mudou para o endereço em setembro de 2020, mas teve tempo para pensar na decoração e fazer alguns ajustes antes de pisar, de fato, na nova casa. A parte hidráulica e elétrica já havia passado por uma reforma há dez anos, então o que ficou por conta de Tiê foi a marcenaria. Ela decidiu refazer a cozinha, o escritório/quarto de hóspedes, e o closet para que os móveis ficassem com a cara dela, assim como todo o apartamento. Mas não há uma definição exata de estilo, pois Tiê gosta de misturar referências e buscar inspirações diversificadas.

“Acredito que a inspiração é sinestésica: tem a ver com cheiros, cores, tecidos e sons. O meu apartamento é uma mistura de estilos. Isso significa que a minha casa pode ser mais moderna e minimalista em algumas partes, mais romântica em outras, meio kitsch ou meio antiga também”, ela explica. As peças de família estão por vários cantos do apê, adicionando mais um pouco de história à composição. As esculturas de corpos femininos foram presentes feitos pela própria mãe da moradora, que decorou a casa com as obras antes mesmo de Tiê se mudar. Já a penteadeira era de sua bisavó, assim como a cômoda que fica no quarto.

Uma parte dos móveis foi acumulada ao longo dos anos, então muitos deles são antigos e cheios de história. Por isso, tudo o que veio de novo no cantinho da Tiê foi escolhido com muito critério por ela. Seu xodó é o sofá roxo de veludo, que fica perto da escada de acesso entre os andares do duplex. A moradora encomendou a peça no tamanho ideal para caber no ambiente e sem um dos braços para que ele acolhesse quem entrasse ali: “Eu amo o meu sofá, ficou do jeitinho que eu sonhava: confortável, acolhedor, moderno e colorido! Ele foi o meu grande presente no apartamento”.

E quem aproveita bastante a casa é a outra moradora: a gata Astoria. Os cômodos também foram pensados para ela, que parou repentinamente de andar em março de 2020. Agora, a gatinha já está melhor de saúde e o processo de recuperação fez Tiê detalhar ainda mais o projeto. A arquiteta evitou criar espaços onde Astoria pudesse entrar e fosse difícil tirá-la, como embaixo da cama ou do sofá. A gata também tem um canto próprio para dormir – embora ela prefira a cama da dona – e um banheirinho camuflado na marcenaria da cozinha.

Cada detalhe revela um pouco da personalidade da curadora, seja nos discos de vinil expostos que mostram seu gosto musical ou o apreço pelas cerâmicas artesanais que estão na cozinha. Para Tiê, o que faz do seu apartamento um lugar especial é muito mais do que morar ali, e está traduzido em como ela se sente no seu espaço: “Aqui, eu me escondo quando o mundo não ajuda, mas também o apê está sempre aberto para receber novas pessoas. Minha casa é um lar porque é aqui que vivo o cotidiano com a Astoria, e porque cada canto foi pensado por mim com carinho e cuidado”.

Texto por Natália Pinheiro | Fotos por Leila Viegas