A vida da ceramista Cecile e do designer de produto Manuel na cidade de Lisboa já dura sete anos, mas a rotina nesse apartamento com vista para o calmo horizonte em terras portuguesas começou em 2020, pouco antes do confinamento ocasionado pela pandemia. “Foi uma sorte termos mudado a tempo!”, lembra o casal. Assim que os dois acordaram pela primeira vez no novo lar, o que mais os encantou foi a iluminação do apê: “O sol enche a sala de luz ao nascer. Adoramos isso, sobretudo no inverno”. O espaço estava praticamente esperando por eles, sem necessidade de grandes reformas ou intervenções. Para o casal, ficou o desafio de fazer algumas mudanças mais práticas, como pintura, troca de azulejos e ampliar a cozinha retirando paredes.

A ideia de morar em Lisboa partiu de Cecile. Tanto ela como o marido já tiveram endereços em diferentes lugares do mundo. Ela tem origem francesa, nasceu em Biarritz e morou em Bruxelas, Grenoble e Lausanne. Ele é português, mas viveu e trabalhou em Milão, Roterdão e Lausanne. Esta última, uma cidade na Suíça, foi onde os dois se conheceram. Depois desse encontro, veio a vontade de se mudarem novamente. “O Manuel queria ir para uma cidade maior, mas eu logo achei isso uma má ideia. Agora, após esses anos em Lisboa, estamos os dois muito contentes. E três filhos depois, temos rotinas boas entre trabalho e lazer”, conta a moradora.

Outra vantagem é a facilidade de se conectar com o campo ou a praia sem precisar ir muito longe da cidade portuguesa. Durante a pandemia, no entanto, a família teve que se voltar para a nova casa e descobrir os detalhes que o lar reservava. As crianças encontraram na cerâmica, no desenho e na pintura um lugar para se expressarem. A configuração da sala também ajudou nas brincadeiras e nos momentos juntos: “Adoro ter um grande tapete sem mesa na sala, para os miúdos terem espaço para dançar, brincar… e nós descansamos com eles, deitados no chão”.

A sala, ampla e integrada com a área da mesa de jantar, é um convite constante para os moradores aproveitarem o espaço e receberem os amigos e familiares. Para Cecile, o canto ao lado do sofá e de frente para a varanda, repleto de plantas, é o seu lugar favorito da casa. Já para Manuel, a vista que se tem da janela menor, perto da mesa de jantar, é o que torna o apê ainda mais especial. Entre diferentes preferências, o que entra perfeitamente em harmonia é a decoração proposta por eles para cada cômodo.

“A casa foi-se compondo de forma orgânica. Fomos utilizando alguns móveis que nos ofereceram, como um carrinho de chá que está na sala, o sofá Togo ou uma mesa de costura que está a funcionar como mesa de cabeceira”, dizem. A decoração ainda ganha um toque a mais nas paredes com obras feitas por amigos do casal. Para completar, as profissões de Cecile e de Manuel também influenciam a composição do apê, que não tem a pretensão de chegar a um único final: “O nosso trabalho, para além de ser muito manual, consiste de um processo de edição constante: pensar no que queremos fazer, como fazer e sobretudo como os objetos funcionam em conjunto com outras peças ou não”.

Alguns itens ganham mais a atenção de Cecile e Manuel, que gostam de uma casa com histórias para contar. Não à toa, eles escolheram um prédio construído em 1989 para morar. Dentro do apartamento, o destaque fica por conta das relíquias de família, principalmente do avô da ceramista. “Não temos muitos móveis de família, mas sim, objetos. Provavelmente porque vivemos na Suíça, Bélgica, Holanda e finalmente Lisboa. Os objetos pequenos são mais fáceis de transportar e contam muitas histórias”, dizem.

Para onde quer que se olhe, o apê localizado no bairro Campo de Ourique oferece conforto para os olhos. A varanda permite que o céu aberto e extenso faça parte do cotidiano da família, enquanto o lado de dentro guarda boas memórias e ressignifica a todo instante as funcionalidades e objetivos estéticos das peças e móveis ali presentes. E na verdade, a parte mais importante desse conjunto são as pessoas que vivem ali e trazem vida ao apê: “O que faz um lar são as pessoas que vivem lá. A aura delas. O barulho, as gritarias dos miúdos, o sossego quando eles estão a dormir. A música que eles ouvem, a luz que usamos, azul, branca ou amarela… são esses detalhes”.

Texto por Natália Pinheiro | Fotos por Gui Morelli