Dividir o tempo morando entre dois países faz parte da rotina de Samantha e Johnny. Eles se conheceram em uma festa na cidade de Dublin lá em 2013, quando Samantha estava de passagem pelo país para trabalhar e estudar, assim como outros brasileiros. Durante um ano eles ficaram juntos no exterior até se mudarem para São Paulo, na região do Anhangabaú. Depois de mais um ano, o casal voltou para a Irlanda, só que dessa vez o destino foi a cidade natal de Johnny: Rosslare.

A vida do casal na Irlanda é cercada por bastante tranquilidade e proporciona o espaço que Johnny e Samantha buscam na hora de criar, já que ela é tecelã e ele é músico. “Temos uma rotina que funciona bem para nós: uma boa exposição à natureza, temos um bar de vinhos que também é uma loja e estamos próximos dos meus pais”, explica Johnny. Por outro lado, os dois estão sempre cultivando um relacionamento com São Paulo e as raízes brasileiras de Samantha. “Tentamos passar o máximo de tempo possível em São Paulo para aproveitar tudo que a cidade oferece”, completa o músico.

Quando estão longe, os dois sentem falta da cidade por perspectivas diferentes. Johnny gosta da maneira como os brasileiros são carinhosos e dos nossos legumes, frutas e ervas frescas. Para Samantha, ouvir o próprio idioma é uma das maiores saudades, mas ela lembra também da poesia urbana, das artes na rua e desse caos que todo paulistano já está acostumado. Eles consideram a cidade bem diferente do lugar em que moram no exterior, mas a ideia de ter um apartamento em São Paulo veio como uma possibilidade de passar períodos mais longos por aqui de forma mais sustentável.

E assim foi surgindo esse espaço de afeto e aconchego em um apartamento na Vila Buarque. O lugar foi (re)pensado para proporcionar ambientes mais integrados e concretizar um desejo dos dois: a varanda coberta como parte da área de estar do apê. “Uma vez, ficamos em um Airbnb em São Paulo que tinha uma sacada coberta com telha. Ao invés de ser uma área apenas para pegar sol, colocar plantas ou pendurar roupa, o espaço foi totalmente integrado com o resto do apartamento e tratado como parte da sala”, eles lembram. O casal gostou tanto da ideia que colocou isso na lista de coisas que o cantinho no Brasil precisava ter.

Quando eles encontraram o apê, ainda faltavam algumas mudanças para deixar o imóvel mais bacana, como derrubar a parede e a janela que separavam a sacada da sala para criar esse ambiente aberto. Porém, como o casal comprou o apartamento e estava disposto a melhorá-lo, os dois encararam a obra como uma oportunidade de realmente transformar os espaços com seu olhar. Na integração da varanda coberta, por exemplo, uma escolha dos moradores foi manter os azulejos portugueses originais do prédio, que trazem identidade a esse canto da casa.

“Pegamos as chaves bem no finalzinho de 2019. Foram dois ou três meses de obra enquanto eu e os pedreiros fizemos as reformas principais”, conta Johnny. Essa vontade de fazer parte do processo é muito presente no espaço e a experiência dos moradores contou bastante. Johnny já trabalhou com reforma e manutenção de propriedades na Irlanda, o que o ajudou a acumular conhecimentos básicos de construção. O que ele chama de básico consistiu em fazer a fiação e a parte elétrica do apartamento com pegada industrial; a carpintaria; o acabamento de gesso no teto da sacada; a colocação de azulejos da cozinha; a pintura e também a instalação dos detalhes de decoração.

Já Samantha tomou conta de toda a tapeçaria e das artes nas paredes. “Desenho é a minha base, amo desenhar, sou uma criança nesse sentido. E tecer é a forma de expressão que eu mais gosto de explorar, mas adoro tecer diferentes coisas, não só tapeçaria”, diz. A artista coloca o seu corpo como parte desse processo de criação, por isso ela tem dois teares diferentes na Irlanda – um menor e outro maior, de pedal. Já no Brasil, o apartamento está ganhando aos poucos um lugar dedicado ao seu ateliê na varanda, cheio de linhas para a tecelagem e alguns de seus trabalhos prontos ou em andamento.

O estilo DIY dos moradores é visto por todos os cantos. Eles aproveitaram de tudo durante a reforma para criar novos objetos. Os tijolos retirados da demolição da parede ajudaram a construir o meio muro branco ao redor do fogão, por exemplo. Já a madeira que foi tirada do teto serviu de base para construir a cama do casal. A mesa azul com rodinhas na sala? Também foi invenção dos dois com alguns blocos de madeiras que sobraram. “Uma das surpresas da obra foi o que achamos quando começamos a tirar a tinta das paredes: tudo saiu revelando o gesso original da construção: um azul bonito, meio que nublado. Então a gente deixou assim, sem fazer nada”, complementa Johnny sobre a parede entre a sala e o quarto.

As soluções para o apartamento de 67m² são criativas e cheias de personalidade, como o casal que se divide entre os meses do ano para viver um pouco da vida brasileira e da irlandesa. Entre o contraste natural da madeira com as peças de metal que Johnny adora, e as cores vibrantes e pontuais que Samantha valoriza, o apartamento na Vila Buarque continua ganhando vida. Quando o casal não está por lá, eles alugam o espaço que atualmente está sendo usado por uma amiga em comum. Mas uma das maiores saudades quando o assunto é voltar pro Brasil é a cachorrinha. “Depois de ter trazido a Clarice da Irlanda para o Brasil no ano passado, ela vai ter que ficar com os pais da Samantha. Ela está bem, sendo super bem cuidada. Ela gosta do sol, do calor, gosta de manga… na verdade, é a gente que vai sofrer! A falta dela dá mais uma razão para voltarmos logo a São Paulo!”, finaliza Johnny.

Texto por Natália Pinheiro | Fotos por Leila Viegas