Para quem mora em apartamento, é fácil se identificar com a vontade de trocar um apê apertadinho por uma casa espaçosa e com áreas verdes. Afinal, quem não sonha em ter um lar com jardim, bastante luz natural e ambientes bem resolvidos? Esse era o plano do arquiteto Marcos e da consultora de arte Júlia quando o casal decidiu deixar seu apêzinho de 50m² para encarar uma baita reforma em uma casa antiga na Vila Beatriz. Na época eles nem imaginavam que uma pandemia se aproximava e que, pouco após a mudança, passariam tanto tempo em isolamento, mas a sorte foi que os dois criaram cada espaço com tanto carinho que a casa se tornou seu melhor refúgio nesse momento.

Para Marcos, que é um dos sócios do escritório Iná Arquitetura, o projeto teve um gostinho especial, pois foi sua chance de colocar em prática tudo o que aprendeu em seus anos de profissão – além, é claro, da carga afetiva de poder criar um lar moldado por seu olhar. “Essa casa representa toda a bagagem que carrego até agora. Tenho certeza que se fizesse uma nova obra daqui a 10 anos ela seria diferente, e é por isso que sou apaixonado por arquitetura: o aprendizado é constante e cumulativo”, ele diz.

Se o antigo morador passasse em frente à casa hoje em dia, talvez não a reconheceria. O projeto de Marcos não só modernizou a construção como um todo, mas também a ampliou com dois novos andares – tudo para otimizar ao máximo o terreno e criar espaços de lazer ao ar livre. Praticamente todas as divisões entre os cômodos foram removidas, dessa forma a sala e a cozinha ficam 100% integradas e ambas têm vista para áreas externas com muitas plantas e ladrilhos coloridos. “Tivemos um grande trabalho estrutural de reforçar a casa com vigas metálicas para sustentar o novo andar que estávamos criando”, o morador explica.

Por trabalhar no universo da arte, Júlia também possui uma grande bagagem de referências, então ela adorou contribuir com as escolhas do projeto. “Pensávamos muito juntos. As cores dos ladrilhos, o mural do jardim, a textura dos tijolos originais das paredes… todas essas coisas pensamos a dois”, ela conta. Quanto à decoração, o casal diz que os espaços foram ganhando vida aos poucos, com a combinação entre os móveis trazidos do antigo apartamento e peças novas garimpadas pelos dois ou presenteadas por amigos na festa de open house.

Itens afetivos, como o tapete herdado de uma avó ou a escrivaninha vinda de um bisavô, ajudam a trazer a essência dos moradores e de seus ancestrais para o novo lar. E as obras nas paredes também não foram escolhidas ao acaso. “Todas as obras de arte são de artistas com quem já trabalhei, então sempre lembro dessas relações e de como gosto do meu trabalho”, Julia diz. No final, o visual da casa ficou leve e descontraído, mas com identidade, carinho e memórias.

Além da casa feita sob medida para o estilo de vida que gostariam de levar, o bairro também contribui e muito para o encantamento de Marcos e Júlia com essa nova fase. “Conseguimos fazer tudo a pé. Temos o metrô por perto, mas às vezes parece que estamos numa cidadezinha do interior com os vizinhos colocando cadeiras na calçada e as crianças brincando soltas”, eles contam. A região conta ainda com uma horta comunitária e uma praça gostosa onde o casal pode curtir ainda mais o contato com a natureza. Por ali os vizinhos se conhecem e viram amigos, e não é raro haver trocas entre as casas: “A Luiza e o Tito moram aqui do lado e nos dão banana da bananeira deles. Nós levamos os pães que o Marcos faz e coisas assim…”

Logo na entrada da casa – na laje acima da garagem – os moradores criaram um terraço descoberto com piso de ladrilhos azuis. Marcos e Júlia adoram esse espaço, pois ali podem observar o movimento da rua, brincar com os gatos, pendurar a rede, tomar sol e até fazer calls de trabalho nesses tempos de isolamento. Enfim, era tudo o que eles queriam depois de tantos anos vivendo em apartamento. * Quer conhecer o restante dessa casa dos sonhos? Fique de olho no Capítulo 2!

Fotos por Maura Mello

Continua no Capítulo 2