Um apê que guarda a memória de uma família, mas também representa a personalidade única de sua moradora. Assim é o lar da Carollina, curadora independente e pesquisadora de arte. Para ela, viver no apartamento que pertenceu a seus avós ajuda a manter algumas lembranças frescas, como as de quando era pequena e visitava o endereço junto com o seu irmão. Décadas depois, o lugar está um tanto quanto diferente, mas as histórias que suas paredes contam não a deixam esquecer do que faz o espaço ser um verdadeiro lar.

Seu prédio fica no Alto de Pinheiros, em uma região cheia de árvores e parques que Carollina considera um paraíso: “Eu amo morar aqui. Mesmo estando ao lado de uma avenida movimentada, mal escuto o barulho dos carros. É uma grande qualidade de vida acordar com passarinhos na janela”, ela conta. Como se não bastasse, a natureza também invade seu lar através de plantas com as quais a moradora tem uma relação de cuidado mútua: enquanto observa e atende suas necessidades de água e sol, cada vaso devolve o carinho deixando o lar ainda mais acolhedor.

Por um tempo, Carollina dividiu o apartamento com seu irmão, que a ajudou no processo de deixar o espaço em seu formato atual: “O imóvel ainda tinha a configuração e mobiliário de quando meus avós moravam aqui, então fomos mudando as coisas aos poucos, trocando algumas peças e reorganizando os ambientes, até que finalmente encaramos uma grande reforma, quase quatro anos atrás”.

Naquela época, o apê já pedia uma reestruturação elétrica, então seus moradores aproveitaram para deixá-lo esteticamente com seu estilo. A reforma foi comandada pelo Sul Estúdio e mudou bastante o clima do lar: um quarto foi aberto para aumentar a área da sala; a cozinha ficou integrada; a coluna central foi descascada e revelou o concreto aparente, e o cimento queimado foi escolhido como revestimento para pisos e bancadas. A partir daí, o apartamento foi ganhando a cara que tem atualmente, até que em 2019, o irmão de Carollina se mudou para Portugal.

Com o apê todo para a moradora — e para as gatas Francisca e Eva, o maximalismo foi ganhando espaço pelas paredes, mesas e estantes, que aos poucos foram tomadas por obras de arte: “Tenho uma coleção ainda tímida, mas que se relaciona diretamente com meu trabalho, que sempre foi priorizar uma maioria minorizada e corpos dissidentes”, conta Carollina. Entre seus itens favoritos, estão dois quadros de Samuel de Saboia comprados na época em que ele vendia suas obras via Facebook, e diversas peças de artistas com os quais Carollina estabeleceu trocas e parcerias ao longo de sua carreira, como Sandra Lapage, Sol Casal, Élle de Bernardini, Lyz Parayzo e Thais Stoklos.

No dia a dia, esse universo artístico se mistura com a rotina da casa e suas memórias: a poltrona que pertenceu à avó de Carollina continua na sala e é o cantinho preferido da gata Eva, que adora tomar sol. Já Francisca, quando não está grudada na moradora, prefere ficar escondida no guarda-roupas, tirando alguns cochilos durante o dia. Para completar o clima, flores, aromas e músicas se tornaram ainda mais essenciais durante a quarentena e Carollina nunca deixa faltar um bom vinho para os momentos de descontração.

Entre tanta beleza e significado, sua identidade e história se refletem em cada cômodo do apê e fazem dele um lar cheio de personalidade: “Cada canto é permeado de uma lembrança importante que me diz a todo momento que meu lugar é aqui”.

Texto por Yasmin Toledo | Fotos por Felco