Era uma vez o apartamento que não sabia direito o que ele era. De referências que vão do minimalismo japonês até inspirações clássicas tiradas de Versailles, o lar dos arquitetos Anna e Stefano é resultado de uma mistura inusitada. O casal brinca que a decoração do apê é um tanto improvável – afinal, quem juntaria uma réplica de um quadro da Maria Antonieta com uma tapeçaria oriental; ou então uma bancada de mármore italiano com um par de skis grafitados? Mas a verdade é que os dois conseguiram unir seus gostos perfeitamente, criando espaços não apenas bonitos e acolhedores, mas repletos de itens de afeto e histórias divertidas.

Além das preferências de cada um em termos de estilo, Anna e Stefano também têm personalidades um tanto distintas. Ela enxerga a casa quase como um templo sagrado de introspecção, ele, por outro lado, sonha com os dias em que poderão receber muitos amigos quando o isolamento acabar. Enquanto ela sempre foi apaixonada por design de interiores, ele cresceu cercado por obras de arte e herdou esse interesse de família, então no apê esses dois universos se juntam. “Desde o começo, o conceito do apartamento foi usar essas diferenças e por meio da decoração trazer o equilíbrio e harmonia que representam o nosso relacionamento. Cada pedaço foi pensado e repensado com muito carinho para agradar aos dois”, Anna conta.

O apartamento fica no Edifício 360°, idealizado pelo arquiteto Isay Weinfeld, e já pertencia a Stefano desde a inauguração do prédio. O imóvel passou alguns anos alugado e por isso lhe faltava personalidade, então antes da mudança o casal decidiu fazer diversas melhorias. Anna explica que o edifício tem uma modularidade construtiva muito bacana que dá aos moradores total liberdade para montar o layout interno – e como bons arquitetos, naturalmente eles tiraram proveito dessa vantagem. Outra descoberta feliz durante a reforma foi o entreforro de quase 2 metros, o que permitiu a ampliação do pé-direito da sala para 4 metros de altura.

Após alguns meses planejando e reformando, a mudança para o apê aconteceu no início de abril, na mesma época em que começou a quarentena em São Paulo. “Por conta da pandemia, estamos vivendo full time no apartamento, o que tem sido uma experiência maravilhosa de apropriação do espaço. Foi um lugar projetado de forma muito ‘interna’ para abrigar e refletir nossa personalidade para nós mesmos”, Anna diz.

Em meio a tantas mudanças, o casal não teve medo de fazer uma grande escolha: durante a quarentena, Anna e Stefano resolveram adotar o Bisnaga, um cachorrinho com necessidades especiais que possui um problema de locomoção. A chegada desse novo integrante demandou diversos ajustes – tanto na rotina quanto nos ambientes propriamente ditos. “Quando o adotamos, tivemos que planejar dentro dos espaços uma área onde ele pudesse ficar confortável, e acabamos criando o home office / suíte canina”, Anna brinca.


Além de atuarem na área, Anna e Stefano são filhos de arquitetos, com famílias muito ligadas à produção artística. Juntando todas as peças e obras de arte que eles herdaram dos pais, e também os itens trazidos de viagens ou colecionados desde o começo do namoro, o casal já tinha um bom ponto de partida para a decoração do apê. “Tem até uma curiosidade: mesmo nos mudando efetivamente na quarentena, só tivemos que comprar o box da cama e utensílios de cozinha – todo o resto já tínhamos de uma forma ou de outra juntado nos últimos 3 anos!”, a arquiteta conta.

Tudo na casa tem seu valor especial, das máscaras compradas em viagens, passando pelo quadro de Flávio de Carvalho que pertenceu à antiga galeria dos avós de Stefano, ou pela ânfora da marca Seletti que Anna queria muito e se espatifou no chão na primeira semana de apartamento. Sem se deixar desanimar, ela colou os pedacinhos como um quebra-cabeças e a ânfora segue ali na estante, com rachadura e tudo. Entre outras referências bacanas, a moradora diz que puxou de sua mãe a paixão por cadeiras – inclusive, as duas reformaram juntas um modelo Hill House pintando-o de branco e trocando o assento original por fibra natural. Elas brincam que é a versão tropical by @acasasoleil, marca da mãe da arquiteta.

Anna poderia passar horas contando sobre cada um dos detalhes do apartamento com um sorriso no rosto – afinal, todos os itens significam alguma coisa, e para ela essa é justamente a beleza de seu lar. “Foi um processo muito orgânico mobiliar a casa porque começou anos antes de sequer termos o apê! Hoje ele nos reflete e vai mudando conforme nós evoluímos também. Se precisasse definir em uma palavra, seria orgânico mesmo”, diz. * Ei, você amou tanto quanto a gente? Então não perca o Capítulo 2!

Fotos por Maura Mello

Continua no Capítulo 2