Esse apartamento em Pinheiros não é apenas uma casa. É o lugar onde a história de Rafael ganha vida, preenchendo paredes, estantes e gavetas. Tudo o que ele já viveu e as pessoas com quem cruzou estão de certa forma representadas na decoração. “Aqui tenho tudo o que me importa: as marcas dos meus amigos que passaram pela casa, peças de pessoas com trabalhos em que acredito e um pouquinho de cada lugar por onde eu passei”, o morador diz. Um milhão de memórias concentradas em um espaço que, ainda por cima, tem uma arquitetura única. * Se você ainda não leu o Capítulo 1, confira AQUI.

Integrado à sala, o escritório é na verdade um ambiente com multifunções. É ali que Rafael se refugia quando quer descansar, ler, tocar piano ou simplesmente pensar na vida. E como todos os outros espaços do apê, esse também remete a boas lembranças.

“O meu avô era um arquiteto incrível e fonte de muita inspiração para mim. Vem dele o amor e o cuidado com o lar, vem dele a reflexão do potencial transformador de uma casa e da arquitetura. Lembro muito dele me contando que uma casa nunca pode ter quartos grandes e sala pequena, e sim o contrário. Ele dizia que os quartos devem ser pequenos o suficiente para que a gente fique na sala e assim conviva com as demais pessoas. É tão simples, mas é tão bonito. Diz tanto desse mundo em que vivemos, onde a intolerância se sobrepõe ao diálogo e ao outro.

Pendurei no escritório dois projetos dele enquadrados. O da casa real que ele construiu e na qual minha mãe viveu parte importante da vida, e o outro, que descobri em suas coisas quando ele faleceu. O projeto realmente construído era lindo, mas o segundo projeto que ele sonhou para o mesmo terreno era genial, e acabou não sendo executado. Coloquei então os dois projetos na parede. Um deles me lembra a minha infância e o segundo é um alerta de que a vida passa rápido e se a gente não tiver a coragem de esboçar nossos sonhos, corremos o risco de terminar sem eles”, Rafael conta.

Apaixonado por paredes com história e personalidade, Rafael expôs os tijolinhos no quarto, como se emoldurassem a cama com cabeceira de palhinha. Sobre ela, a fotografia é uma de suas peças preferidas no espaço – o restante da decoração é uma mistura espontânea de estilos, sem complicação. Já o banheiro deu mais trabalho para ficar pronto: “A grande verdade é que o banheiro sofreu uma transformação radical desde que me mudei. Foi a única parte da casa onde não me encontrei depois da reforma. Ele era todo de ladrilhos amarelos, mas achei que ficou pesado e não me refletia. Aí mudei o piso, pintei as paredes e aos poucos a jiboia foi tomando conta do espelho”, ele lembra.

Rafael acredita que o que transforma a casa em lar é o tempo e a vivência, assim como o amor de todos que passaram por lá e deixaram suas marcas. “Acho que uma casa pode ter personalidade, mas torná-la aconchegante e harmoniosa é que é o grande desafio. Para mim, o que funciona é revisitá-la e revê-la, distanciando-se para ir aos poucos fazendo ajustes. O primeiro resultado nunca é para mim o final”, explica. Quem sabe quantas vezes o apartamento ainda vai mudar? Tudo depende das mudanças da vida – e que sejam bem-vindas.

Fotos por Alessandro Guimarães