Uma casa e todas as memórias que ela guarda não podem ser resumidas de uma vez só, então por aqui fazemos diferente. Ao invés de concentrar todos os detalhes e fotos em uma única matéria, criamos pequenos capítulos para que você possa curtir essa visita durante vários dias. É só acompanhar a ordem pelo título dos posts e apreciar o passeio sem se preocupar com o relógio. 

Esqueça o óbvio. Na casa de Rodrigo e Guilherme, as velhas regrinhas de decoração saem de cena para dar vez a composições criativas e muito pessoais, onde memórias, coleções e criações autorais se encontram em espaços que prendem o olhar. Rodrigo é cenógrafo e designer e Guilherme é diretor de arte, então ambos têm intimidade com o assunto, mas a beleza do apartamento não é apenas uma questão de vocação – é uma questão de alma.

Na verdade, a relação de Rodrigo com o apê começou antes de eles se mudarem. O cenógrafo vivia no nono andar do mesmo prédio e durante muito tempo cobiçou o quintal do vizinho do primeiro andar: “Quando descobri que esse apartamento estava à venda e fui conhecê-lo de perto, foi amor à primeira vista. A possibilidade de morar no centro e ainda ter um quintal me convenceu na hora, mesmo sabendo que perderia toda a vista que tinha da cidade”, ele conta. Depois desse primeiro encontro, Rodrigo ainda esperou mais um ano até seu imóvel antigo ser vendido. E então finalmente o ‘namoro a distância’ se concretizou.

Os moradores lembram que o apartamento dos anos 70 nunca havia passado por uma reforma, por isso o encanamento, a parte elétrica e os acabamentos pediam uma renovação. Apesar desses detalhes, Rodrigo sempre encarou o espaço como uma página em branco – um lugar onde suas ideias poderiam ganhar asas. “Eu tenho muitas referências visuais no meu trabalho e isso é impresso na decoração da casa, mas acho que essas referências não vêm só da profissão, elas vêm da vida, da casa da avó, das viagens…” Guilherme, por sua vez, procura aproveitar toda essa inspiração do namorado, já que o estilo dos dois no fim das contas é bem parecido.

Antes da reforma o apê tinha cômodos subdivididos e consequentemente mais escuros, pois a luz natural não conseguia alcançar todos os cantos como faz agora. Quando as paredes da cozinha e de um dos quartos foram removidas, a sala integrou-se por completo e se transformou em um ambiente amplo, perfeito para os dias em que o casal recebe os amigos em casa. As bancadas e armários de alvenaria, construídos do zero na obra, servem para separar as funções dentro do mesmo espaço. Aliás, funcionalidade era um dos pré-requisitos para a cozinha, território de Guilherme:

“Eu comecei a cozinhar não tem muito tempo, faz uns dois ou três anos, depois que fui morar sozinho. Quando viemos para cá, com essa cozinha grande e equipada, fui me dedicando e gostando cada vez mais. Após um tempo cozinhando para as visitas e inventando receitas, alguns amigos começaram a encomendar conservas e patês que eu criava – foi aí que me juntei com dois amigos, o Thiago Frias e o João Ozores, e montamos a Comensais, uma marca de comidinhas, petiscos e delícias em geral”, ele explica.

Além dos móveis e objetos que cada um deles trouxe de seus antigos apês, como a coleção de esculturinhas meio kitsch de Guilherme ou a coleção de porcelanas Lladró de Rodrigo, a decoração da sala integrada traz peças idealizadas pelo cenógrafo: a mesa de jantar, a estante preta da televisão, a mesinha de centro… “Os móveis que criei foram todos desenhados para esse projeto, afinal tive um ano para pensar e repensar neles. Trazem linhas retas e materiais naturais, como a madeira sem verniz, pois gosto das marcas do tempo. Assim tudo vira história para contar! ”, ele diz.

As obras de arte também merecem destaque, principalmente porque a maioria delas é assinada por amigos do casal, entre eles os fotógrafos Ivan Abujamra, Paulo Bega, Carolina Krieger e Edgar Oliveira. Tanto Rodrigo quanto Gui têm uma admiração especial pela obra de Keila Alaver, uma fotografia articulada de uma mulher com uma vassoura na mão. “Para mim, gostar de arte é uma coisa que tenho desde criança. Minha escola era meio hippie e tinha uma formação mais voltada a isso, mas a faculdade de cinema com certeza ajudou a formar o meu olhar e me fazer perceber a presença da arte no cotidiano”, Guilherme explica.

Criativo e envolvente, o apartamento do casal tem uma riqueza visual e ao mesmo tempo um desprendimento que combina com eles. Nada está ali por acaso e tudo sempre pode mudar de lugar… (Ei, essa história continua amanhã aqui no blog. Não perca!)

Fotos por Gisele Rampazzo

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