Uma casa e todas as memórias que ela guarda não podem ser resumidas de uma vez só, então por aqui fazemos diferente. Ao invés de concentrar todos os detalhes e fotos em uma única matéria, criamos pequenos capítulos para que você possa curtir essa visita durante vários dias. É só acompanhar a ordem pelo título dos posts e apreciar o passeio sem se preocupar com o relógio.

Quem passa pelo discreto portão de ferro em uma rua de paralelepípedos na Vila Pompéia, bairro da zona oeste de São Paulo, não imagina que ali se esconde uma simpática vila com sobrados coloridos, árvores frutíferas e vizinhos que valorizam a qualidade de vida. Foi nesse cenário delicioso, e infelizmente pouco comum nas grandes cidades, que a produtora Mariana escolheu morar.

Depois de passar a infância no interior e de pular de apartamento em apartamento na época da faculdade, Mari teve certeza de que a rotina de condomínio não combinava com ela. Assim que ficou sabendo por meio de amigos que uma das casinhas da vila estava disponível para locação, ela não perdeu tempo: “Era um lugar bom e estavam pedindo um preço justo, por isso logo que agendei a visita já comecei a preparar a mudança. De alguma forma pressentia que essa seria uma casa para chamar de minha!”.

Como nem tudo é perfeito, a construção de 80m² tinha elementos mal conservados e alguns detalhes que incomodavam a futura moradora, como os revestimentos originais da cozinha e dos banheiros, as texturas das paredes e a porta que separava a área de estar. Por outro lado, Mari sabia que o lugar tinha potencial para ficar muito agradável após algumas alterações. No fim das contas o emocional falou mais alto e ela foi conquistada pelo quintal dos fundos, pela escada de madeira que lhe traz lembranças da casa de seus avós e pelo piso de tacos em bom estado. Mariana confessa que esse conjunto de fatores gerou uma ligação instantânea entre ela e a morada.

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Para conseguir deixar os ambientes com a sua cara, porém sem gastar muito, Mari contou com a ajuda do amigo e arquiteto Paulo Castellotti. “O Paulo me conhece há anos. Ele sabia dos meus desejos e estava ciente das limitações também, afinal não dá para investir muito em um imóvel alugado. A maior dificuldade foi equacionar o que realmente precisava ser mudado para deixar os espaços confortáveis e ao mesmo tempo controlar os custos.”. A reforma foi feita na ponta do lápis, mas ainda assim foi possível alterar bastante coisa: algumas das paredes da sala foram descascadas para que os tijolos ficassem à mostra, o banheiro perto da área de serviço se transformou em um lavabo com piso novo e a cozinha, agora sem portas a isolando, ganhou revestimentos simples, porém charmosos.

Com a estrutura pronta, a etapa de preencher os cômodos com peças de afeto e muitas memórias ficou a cargo da própria moradora. “Minha decoração foi concebida de forma muito orgânica, sem linearidade. Desde o começo sabia que usaria os móveis que já tinha e queria combiná-los a itens rústicos e reciclados que eu pudesse produzir sozinha. Depois foi só completar tudo com objetos que possuem significado para mim”, revela.

Tanto a vontade de preservar móveis antigos quanto o talento para criar coisas a partir de materiais reaproveitados estão no DNA da família de Mari, então não é à toa que cada elemento usado na casa tem uma história interessante por trás. Alguns exemplos são as cadeiras da mesa de jantar, garimpadas por sua mãe há muito tempo; a poltrona de madeira que pertenceu à sua bisavó e hoje fica ao lado da vitrola; o binóculo que seu avô usava para acompanhar corridas de cavalo; a ferradura que ela ganhou de uma senhora em uma viagem à Bahia ou o santinho presenteado por um senhor no México. Isso sem falar na mesa da cozinha, que era parte da cenografia de um filme e quase foi parar no lixo, ou nos lustres, todos abandonados e retirados de obras em que seu tio, do ramo imobiliário, trabalhou. Restaurados um a um por Mariana, eles hoje fazem a diferença na composição dos espaços.

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Defensora do reaproveitamento, Mariana acredita que esse hábito é, na verdade, uma filosofia de vida. “Por trás da criação de um objeto, existe o objetivo de reutilizar ou buscar novos usos para o que já está disponível. Dessa maneira a energia circula, poupamos recursos naturais e dinheiro. Colocamos a nossa alma em coisas que nos rodeiam e com isso criamos um ambiente verdadeiramente nosso.”. As cortinas foram costuradas por ela, o carrinho da vitrola e o armário de metal oxidado onde ficam as louças têm seu desenho, o mesmo vale para os quadros em ponto cruz ou as luminárias feitas com partes soltas… o que não falta no sobrado são ideias legais.

A própria luminária da cozinha, que se tornou protagonista do cômodo, foi improvisada por Mari. Feita a partir de um portão comprado em um ferro-velho, inicialmente a estrutura seria usada como paneleiro, mas assim que colocou os vasos de plantas apoiados ali, a moradora se deu conta de como a ‘instalação’ ficaria atraente. Usando capas de soquete de madeira e lâmpadas com filamento à mostra, ela transformou a grade de ferro em um item que coroa o estilo industrial do espaço. Como gosta de cozinhar e fazer as refeições com calma, Mariana também prezou pela amplitude e funcionalidade, deixando os utensílios expostos em prateleiras abertas. A coleção de pratos, inspirada na de sua mãe, é exibida com orgulho no alto das paredes e garante uma dose extra de aconchego.

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Apaixonante, a casa de vila da Mari prova que felicidade e ostentação são dois conceitos muito distantes um do outro. Afinal, a beleza está justamente nas coisas mais simples. Recheada de personalidade e muito carinho, a morada é o cenário perfeito para uma vida leve e descomplicada, do jeito que ela queria.

Fotos por Isadora Fabian

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