Last Updated on: 15th junho 2026, 12:43 pm

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Sabe aquela sensação de precisar recuar alguns passos para conseguir enxergar, de fato, o que está logo ali na frente? A relação da arquiteta Veronica Molina com suas origens colombianas tem muito a ver com esse movimento. Por mais que, desde a infância, ela já reparasse no pulsar de Medellín, com suas celebrações coletivas repletas de simbolismo e encantamento, foi preciso cruzar a fronteira rumo ao Brasil para que seu olhar sobre as próprias raízes se tornasse mais nítido e profundo:

“Acho curioso que só consegui entender a dimensão dessa influência quando saí de Medellín. Foi na ausência dessas referências que elas ficaram mais evidentes para mim. Quando deixam de fazer parte da normalidade, você começa a enxergar melhor suas particularidades e o quanto elas moldaram sua identidade. De certa forma, foi vivendo fora que consegui me entender melhor como indivíduo, mas também foi assim que Medellín ficou ainda mais presente em mim. Tudo o que veio de lá ganhou mais clareza com o tempo.”

A arquiteta cresceu imersa na mestiçagem cultural de Medellín, cercada por montanhas verdes e por uma arquitetura que parece sempre conversar com a rua. Ali, as casas com grandes janelas, balcões, varandas e escadas externas criam uma relação muito próxima entre a intimidade do lar e o viver coletivo. E foi a partir desse diálogo entre morada, natureza e rotina que ela aprendeu a reparar na beleza dos encontros mais sutis: quem passa diante da janela, as conversas na praça, a presença da igreja e os pequenos gestos que dão forma ao sentimento de comunidade.

“Essas memórias definiram minha maneira de entender os espaços: lugares feitos para reunir pessoas, contar histórias e criar rituais cotidianos.”

Apartamento alugado da arquiteta Veronica Molina, acolhedor e com tons quentes
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Quando desembarcou no Brasil, em 2010, Veronica se sentiu instigada pelo dinamismo de São Paulo. Para ela, é uma cidade que exige observação: quanto mais você olha, mais descobre camadas, contrastes, histórias, arquiteturas e pessoas diferentes coexistindo. Esse cenário tão plural lhe deu a liberdade de experimentar e se expandir, e isso teve um grande impacto em sua vida, tanto pessoal quanto criativamente.

Em seu apartamento alugado, onde vive há quatro anos, o olhar profissional de Veronica ganhou um novo contorno. Sem focar em transformações estruturais radicais, ela apostou em intervenções sutis para valorizar a história do espaço e usou a decoração para traduzir sua essência. Todos os detalhes são pensados e existe uma intenção por trás de cada composição. “Minha casa é cheia de pequenos símbolos e misturas. Gosto de criar relações entre objetos, culturas e memórias, quase como uma costura afetiva entre tudo aquilo que faz parte da minha trajetória”, ela conta.

Apartamento alugado da arquiteta Veronica Molina, acolhedor e com tons quentes
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Nessa mistura espontânea, peças da cultura popular latino-americana — como itens vindos do México, Peru e de sua terra natal — pontuam os ambientes: colchas coloridas, artesanatos, máscaras, esculturas e elementos sacros. Para completar a lista de paixões da moradora, móveis antigos em madeira, repletos de memória e de marcas do tempo, também trazem personalidade.

“Minha mãe costuma dizer que, quando entra na minha casa, sente que eu estou em todos os lugares — em cada detalhe ou objeto colocado de uma maneira especial. Acho bonita essa percepção, porque realmente vejo a casa como uma extensão muito íntima da minha identidade e da minha memória”.

Apartamento alugado da arquiteta Veronica Molina, acolhedor e com tons quentes
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As escolhas arquitetônicas também respeitam a passagem do tempo, mas, dessa vez, focando na história do próprio imóvel. À frente do Memola Estúdio, escritório de arquitetura que tem como premissa justamente o equilíbrio entre o novo e o antigo em cada projeto, Veronica fez questão de resgatar um lugar com grande potencial, mas que parecia esquecido no tempo. O apartamento ainda estava quase todo original, mantendo o piso de madeira, os azulejos verdes do banheiro e os revestimentos da cozinha, embora precisando de restauro. E era isso o que a arquiteta buscava: uma chance de revitalizar o que já existia, sem apagar seu passado.

Na cozinha, o desejo de revelar a história do espaço se materializou em soluções interessantes. Começando com a janela de ferro conectada à área de serviço, que é nova, mas segue fielmente o modelo anterior. Além de refazer a bancada e o frontão, Veronica removeu um porcelanato da parede e tomou uma decisão ousada: em vez de usar um novo revestimento, preferiu deixar aparentes as marcas de colagem das placas antigas, criando um efeito cheio de textura. Para camuflar a lateral da geladeira, uma pequena divisória foi erguida e cuidadosamente revestida com o mesmo azulejo amarelo original. O piso também foi restaurado e completado com peças idênticas às de época.

Apartamento alugado da arquiteta Veronica Molina, acolhedor e com tons quentes
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A mesma sensibilidade com a passagem do tempo guiou as transformações no banheiro, que já tinha revestimentos verdes de época pelos quais Veronica se encantou. As paredes passaram por uma manutenção minuciosa com a substituição das cerâmicas danificadas e a renovação dos rejuntes. Para dialogar com essa base antiguinha, a arquiteta desenhou uma bancada coberta por azulejos brancos e instalou acessórios de louça charmosos, além de decorar o espaço com itens de afeto.

Pensando em ter um espaço de muito conforto visual e emocional, Veronica definiu cada detalhe do quarto com carinho. Ali, ela preferiu evitar o excesso de informação, permitindo que cada móvel e obra de arte respirasse livremente, como o trabalho de Egon Schiele ou a tela do artista Zé Vicente. As cores, tecidos e texturas — como a brincadeira com a sobreposição de tapetes — criam uma atmosfera quente, enquanto a vista da janela para o verde entrega a deliciosa sensação de flutuar na copa das árvores.

Apartamento alugado da arquiteta Veronica Molina, acolhedor e com tons quentes
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Entre as tantas histórias que preenchem o apartamento, uma tela em especial reflete a forma como a moradora se enxerga no mundo. É o quadro de William Mophos, que retrata uma menina caminhando na corda bamba, uma imagem que, para Veronica, representa sua eterna busca por equilibrar intensidade, delicadeza, força, sensibilidade e constante transformação. Esses traços de sua personalidade se espalham por todo o lar, costurados por tons quentes, sobreposições, relíquias, móveis garimpados e obras de arte. Nas palavras da própria arquiteta, é uma tradução física de seu universo mais íntimo:

“Minha casa é um espaço onde quero me expandir — expandir minhas ideias, minhas referências e todas as misturas que fazem parte de quem eu sou. Quero me sentir muito “eu” em toda a experiência da casa. Não apenas na estética, mas também na atmosfera, na energia e na forma como os ambientes acolhem as pessoas. Tudo convive de maneira muito intuitiva, afetiva e viva — exatamente como acontece dentro de mim.”

Texto e Coordenação de pauta por Bruna Lourenço | Fotos por Leila Viegas