Last Updated on: 5th junho 2026, 06:31 pm

“Tenho um impulso que sempre me acompanhou: o de explorar”. É assim que o designer Carlos Hernández Téllez justifica sua natureza inquieta e o fato de já ter vivido em mais de seis países diferentes ao redor do mundo. Guiado pelo desejo de mergulhar em outras realidades e vivências, ele desembarcou em São Paulo há cerca de uma década.
Desde cedo, sua trajetória é marcada por movimento. Nascido na Venezuela, Carlos recebeu bolsas para estudar arquitetura e design em Hong Kong, Nova York e Copenhague. Na sequência, desenvolveu projetos profissionais na Cidade do México e em Berlim. Por ser muito curioso, o designer conta que sempre abraçou as oportunidades de estudo e trabalho, e isso de alguma maneira o ensinou a construir pertencimento em trânsito. “Isso mudou muito minha relação com a ideia de ‘casa’. Para mim, ela deixou de ser um lugar fixo e passou a ser algo que se constrói — com tempo, com escolhas, com objetos, com pessoas”, reflete.

A vinda para São Paulo aconteceu por conta de uma oportunidade de trabalho, mas se alinhou com o desejo de Carlos de retornar à América Latina. O Brasil surgiu para ele como um território pulsante, repleto de camadas e profundamente humano — uma complexidade que o capturou de imediato. “De certa forma, foi aqui que minha vida adulta realmente aconteceu. É onde construí carreira, relações, rotina… e, mais recentemente, uma casa que finalmente sinto como minha”.
Antes de se estabelecer no atual endereço, Carlos percorreu diversos bairros de São Paulo em imóveis alugados. Por mais que funcionassem temporariamente, esses apartamentos não o representavam de fato, pois eram apenas espaços de passagem. Com o tempo, o desejo de criar raízes falou mais alto, impulsionando a decisão de investir, finalmente, em um lar próprio.








Escolher bem sua nova casa era uma grande responsabilidade, mas o destino o colocou diante do cenário ideal: um apartamento que era praticamente uma tela em branco. Mesmo ainda em processo de reforma, o imóvel revelava um enorme potencial de transformação, com espaços prontos para serem moldados ao seu jeito de viver. O projeto ficou sob a responsabilidade da firma de arquitetura BRISE, porém como o morador tem uma relação muito próxima com design e arquitetura, ele fez questão de participar ativamente das decisões, entendendo que este lar seria uma extensão de sua própria forma de pensar.
Com tamanha bagagem de vida, era natural que a casa refletisse um pouco de cada lugar que moldou a história de Carlos. A decoração traz referências à Venezuela de modo sutil, fugindo de traduções literais. Para ele, essa identidade latino-americana se manifesta nas texturas, na paleta de cores e na própria dinâmica dos ambientes — em especial no prazer em receber. Elementos vindos de sua passagem pela Ásia, América do Norte e Europa também estão presentes, assim como inspirações nascidas a partir de restaurantes, do universo do design contemporâneo e de casas que visitou. Carlos explica que o conjunto de peças é uma tentativa de equilibrar dois mundos: o rigor de um certo minimalismo e o afeto do ‘calor latino’, criando uma atmosfera que acolhe.










Mais do que pensar a casa apenas pelo ponto de vista estético, Carlos se guia pelas sensações e pela maneira como um ambiente impacta quem o habita. Nessa lógica, todo objeto carrega uma intenção e uma memória própria: “Cada um marca um momento, um lugar, uma versão minha no tempo. Como cheguei ao Brasil com apenas duas malas, trouxe comigo minha coleção de pôsteres e lembranças que fui acumulando. Penso que a casa funciona como um arquivo vivo — não só do que eu gosto, mas de quem fui me tornando”, diz.
Acreditando que o lar só ganha significado real quando é compartilhado, o morador elegeu a sala e a cozinha como o centro de tudo. É ali que ele exercita seu prazer enquanto anfitrião, seja em jantares ou conversas que atravessam as horas. “Às vezes, quase viram pequenos saraus espontâneos, com música, vinho e gente interessante ao redor da mesa”, conta. Mesmo no dia a dia, quando apenas ele está usando os ambientes, o clima é movimentado: não é uma casa silenciosa, é um lugar onde a vida acontece e se adapta.







Sem dúvidas, a vida de Carlos é definida por eternos recomeços. Nessa busca constante, ele aprendeu a lidar com as transformações com maior maturidade, mesmo diante dos desafios: “O mais difícil é o que não se vê. É o processo interno de se reconstruir — de entender quem você é naquele novo contexto. Existe um tempo até que o lugar comece a te reconhecer de volta. A mudança é um processo profundo que te revela quem você realmente é. Por outro lado, o mais simples, curiosamente, virou quase automático: montar vida. Encontrar um apartamento, conhecer pessoas, organizar a rotina, criar pequenos rituais. Hoje eu sei fazer isso com certa leveza. A migração é algo que constrói resiliência como poucas outras experiências”, revela.
Por mais que se sinta acolhido e entenda que o Brasil é, hoje, o seu lar, Carlos confessa que existe uma sensação de origem impossível de reproduzir fora de sua terra natal. A família, as referências culturais e o sotaque remetem a um tipo de pertencimento que não precisa ser construído — ele simplesmente existe. Viver fora é, portanto, uma experiência agridoce: proporciona a liberdade de construir algo do zero, mas mantém viva uma saudade que o conecta permanentemente às suas raízes.
Texto por Bruna Lourenço | Coordenação de pauta por Dora Campanella | Fotos por Felco
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