Last Updated on: 23rd janeiro 2026, 06:14 pm

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Muitas vezes, nosso conteúdo já esbarrou no Vale do Jequitinhonha por meio das peças de barro que compõem a decoração de tantas casas que visitamos. Mas esta foi a primeira vez que tivemos a região mineira — conhecida como um dos principais polos do artesanato em barro — como destino final. Há tempos sabíamos da importância dessas peças para a arte popular brasileira, mas queríamos entender melhor: como esse fazer manual acontece no dia a dia? E de que forma ele impacta a vida de quem mora ali?

Para responder a essas perguntas, embarcamos em uma expedição pela região a convite do Sebrae Minas.

Localizado no nordeste de Minas Gerais, às margens do Rio Jequitinhonha e próximo à Bahia, o Vale abrange dezenas de municípios espalhados por cerca de 79 mil km². São aproximadamente 980 mil habitantes, a maioria vivendo na zona rural, em territórios onde a relação com a terra — e com o barro — faz parte da vida cotidiana.

Foi nesse contexto que a arte de moldar o barro surgiu, inicialmente com objetivo utilitário, ligado à produção de panelas e objetos para o dia a dia. Com o tempo, esse saber ganhou outras camadas: passou a expressar identidade, memória, pertencimento e também sustento. Em 2018, o artesanato em barro do Vale do Jequitinhonha foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais, um marco que valoriza não apenas as peças em si, mas os modos de fazer, os conhecimentos compartilhados e a relação profunda entre território, cultura e economia local.

Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Expedição ao Vale do Jequitinhonha no Histórias de Casa
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha

Essa história não pode ser contada sem falar das mulheres. Foram elas que, enquanto muitos homens migravam para trabalhar em polos urbanos, encontraram no barro um meio de subsistência. O ofício atravessou gerações, foi passado de mãe para filha, de avó para neta, e deu origem a mestras do barro cujos nomes hoje fazem parte da história da arte popular brasileira. Entre elas, Dona Isabel, uma das maiores expoentes do artesanato do Vale. Já falecida, ela deixou um legado imenso: suas bonecas e figuras femininas ganharam o mundo.

Hoje, o barro vai muito além do utilitário. Ele se transforma em esculturas, bonecas, figuras simbólicas e peças cheias de personalidade, que revelam o gesto, o imaginário e a assinatura de cada artesã e artesão.

Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha

Há cerca de 7 anos, o Sebrae atua na região com projetos voltados ao fortalecimento desse trabalho. As iniciativas incluem apoio ao acesso a mercados, participação em grandes eventos do setor, ações de capacitação e incentivo à comunicação e à presença digital das associações, sempre com foco na valorização da identidade local e na autonomia das artesãs.

Nossa expedição fez parte de uma dessas iniciativas. Para conhecer, ainda que brevemente, o Vale do Jequitinhonha, nos hospedamos em Turmalina e, a partir dali, seguimos para duas comunidades — Campo Alegre e Campo Buriti — além de uma parada em Minas Novas. A seguir, compartilhamos um pouco mais desse percurso inesquecível.

Minas Novas e a Coleção Vale do Jequitinhonha

Em Minas Novas, visitamos o Sobradão, edifício construído em 1821, tombado pelo IPHAN em 1959 e restaurado em 2021. Ali visitamos a exposição Vale do Jequitinhonha, um projeto dedicado ao resgate de peças originárias e à valorização do modo de fazer artesanal da região. A mostra respeita a linguagem própria de cada associação e evidencia as particularidades técnicas e estéticas dos itens, contribuindo para a preservação desse legado e para o reconhecimento da diversidade do artesanato local.

Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Expedição ao Vale do Jequitinhonha no Histórias de Casa
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha

Campo Alegre

Este é um distrito de Turmalina cuja origem está ligada a uma pequena escola criada para ensinar pessoas analfabetas a ler e escrever. Em torno desse espaço, a comunidade foi se formando dentro de uma antiga fazenda chamada Alegre. Hoje, o território é também um lugar de transmissão de saberes: a maior parte das famílias vive do artesanato em barro feito pelas mulheres. Além de vasos, potes e vasilhas tradicionais, elas produzem bonecas, animais e moringas antropomorfas — peças marcadas por uma estética de herança africana. Desde 1985, a Associação dos Lavradores e Artesãos de Campo Alegre (Alaca) organiza e fortalece esse fazer coletivo.

Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Expedição ao Vale do Jequitinhonha no Histórias de Casa
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Expedição ao Vale do Jequitinhonha no Histórias de Casa
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha

Campo Buriti

Campo Buriti fica na zona rural de Turmalina, no Alto Jequitinhonha, e é uma comunidade construída a partir de laços de parentesco. Muitas famílias vivem da agricultura de subsistência e do artesanato, que ganhou ainda mais força a partir da década de 1990, com a fundação da Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo. Hoje, são 39 mulheres que têm o barro como principal fonte de renda, e também como uma forma de se conectar com o mundo, manter vínculos e afirmar identidade.

Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha
Uma expedição ao Vale do Jequitinhonha

Percorrer o Vale do Jequitinhonha é entender que o barro não é apenas matéria-prima: é linguagem, memória, fonte de renda e afeto. Cada peça carrega o chão de onde veio e as histórias que atravessam gerações. Foi um privilégio conhecer esse legado brasileiro de perto e poder compartilhar por aqui com vocês!

Fontes: Sebrae Minas; Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais.

Texto por Yasmin Toledo | Fotos por Leila Viegas