Caso perguntem ao Erick qual é a sua obra de arte favorita exposta dentro de casa, ele vai dizer que é praticamente impossível escolher apenas uma: “Todas as obras têm importância e grande significado para mim”. Mesmo assim, ele arrisca dizer algumas que mais o tocam: a fotografia de Aline Motta; a pintura de Agostinho Batista nos anos 1980; um quadro de David de Jesus do Nascimento… mas a escolha, na verdade, seria injusta. Cada uma delas se conecta de uma forma diferente com Erick, que é conservador-restaurador do MASP. Sempre envolto por muita arte, em seu apartamento não teria como ser de outra maneira. 

Inclusive, algumas peças que eram do museu estão no apartamento contando suas próprias histórias. “Um dos objetos mais interessantes é a ‘Moviola’, uma mesa de edição ou de montagem de filmes em rolo, que era do auditório e foi usada durante as primeiras projeções do Festival Internacional de Cinema de São Paulo, que começou em 1977”, conta o morador. Hoje, Erick usa o item como um aparador na sala de estar. Há também uma cadeira e uma mesa projetadas por Lina Bo Bardi que viraram parte do apê quando o restaurador conseguiu salvar os objetos de uma infestação de cupins: “Eram do restaurante e estavam condenadas. Elas seriam destruídas, mas eu consegui recuperar”.  

Apesar dos 17 anos trabalhando no MASP, Erick entende que não é apenas sua profissão no museu que influencia a decoração do apê. A inspiração está em todo o “universo da arte, da memória, da estética e do fazer humano”. Cada espaço evoca uma lembrança, seja das viagens que fez, das experiências que teve ou das raízes baianas. Erick saiu da cidade de Tucano, na Bahia, e veio para São Paulo ainda criança: “Meus tios e meu pai vieram antes para cá em busca de emprego, e depois viemos eu e minha mãe. Mesmo longe, a Bahia sempre ocupou minha memória afetiva, eu sempre estive conectado a ela”. Os objetos fazem parte dessa conexão do morador com a sua origem. Sempre que volta de viagem, a mala está cheia de itens encontrados em feiras populares, como a Feira de São Joaquim, em Salvador. 

Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.
Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.
Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.
Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.
Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.
Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.

O apartamento, que fica em um predinho antigo, construído em 1949, se tornou esse lugar para onde Erick volta e cria o seu próprio mundo. Quando visitou pela primeira vez o imóvel, ele já se encantou com a luminosidade, o piso de madeira e o teto da sala. Esse último foi descoberto pelo proprietário, que percebeu um buraco no forro revelando a estrutura de madeira que havia ali. Vindo do Piauí, se interessou pelo prédio que fica na rua de mesmo nome, comprou o espaço e deixou à mostra o teto que o lembrava de uma casa que conhecia no Nordeste.  

Quando chegou, Erick fez apenas uma alteração mais significativa: a pintura de duas paredes do quarto. O espaço já estava pronto para recebê-lo, e o morador foi decorando de acordo com o que fazia sentido para ele, além de dar atenção para todas as suas plantas. “Eu sou muito conectado às memórias, aos lugares onde estive, e a arte para mim também conta histórias. A casa é esse lugar onde as histórias estão dispostas nas paredes quase que despretensiosamente, mas na verdade a arte está ali para criar um mundo todinho meu, onde eu escolho o que posso ver e sentir”, diz o morador.

Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.
Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.
Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.
Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.
Apartamento com teto de madeira e muita arte na decoração.

Dentro desse mundo, estão os momentos dedicados para ler na rede, “viver o ócio no sofá” e reunir os amigos em volta da mesa, sempre com boas histórias para contar. O lar do Erick é o seu abrigo, ao mesmo tempo que é aberto ao mundo. “Eu tento fazer da minha casa um lugar de refúgio, mas sem estar em um bunker, tendo dentro de casa um pouco do mundo que preciso, mas com as janelas sempre abertas, ouvindo e enxergando a cidade, seus ruídos, sua construção dura e sua poesia”, diz. Dessa maneira, ele cria seu espaço como um reflexo dos lugares que passou e dos mundos que conheceu.

Texto por Natália Pinheiro | Fotos por Maura Mello