O piano antigo e o vaso de espada-de-são-jorge recebem as visitas assim que elas entram no apartamento do produtor executivo Márcio e do professor universitário Renan, mas ainda é só um gostinho do que vem pela frente. O lugar tem aquele clima gostoso de lar, com bastante cor, música durante todo o dia e vários cantos aconchegantes. Só que essa é uma realidade bem diferente do momento em que o casal visitou o apê pela primeira vez: “A gente brinca que compramos um escombro. No começo, assustou. Mas com orientação de profissionais, vimos que o espaço era um papel em branco com mil possibilidades – e isso nos atraiu”, conta Márcio.

A cobertura fica em um prédio na Praça da República, centro de São Paulo. Construído em 1948, o edifício tombado proporciona vista para ícones da cidade, como o Copan e o edifício Esther, e também para a praça arborizada. Além da paisagem, o que conquistou os moradores foram os 60m² de área externa, divididos em duas varandas independentes.

O casal já compartilhava o mesmo teto há dois anos, mas estava em busca de uma casa com mais espaço, então essa foi uma boa oportunidade. Seria possível dizer que foi um achado, mas a verdade é que nada disso estava planejado: “Um amigo que é síndico do prédio nos apresentou o apê que estava há 10 anos sem morador”, eles lembram. Foi então que os dois toparam a aventura de transformar totalmente os cômodos com a ajuda dos escritórios Pianca Arquitetura e Sábia Arquitetos. A proposta do projeto era “girar” o apartamento, levando a cozinha para o lado oposto da planta original, assim como o quarto, invertendo os ambientes.

O resultado não poderia ser melhor: a cozinha, lugar em que o casal passa bastante tempo e adora testar novas receitas, ficou ao lado da varanda maior, decorada com cores quentes para receber o sol da tarde – e os amigos, assim que possível. É nesse terraço que Márcio e Renan ressignificam constantemente o jeito de curtir a casa: “Fazemos churrasco, transformamos o espaço em pista de dança e aproveitamos o sol. Durante a noite, essa varanda é muito utilizada também para jantares”.

Assim como na varanda com tons amarelos, as cores em cada ambiente foram muito bem pensadas. Os cômodos íntimos pedem mais calma, por isso, os moradores escolheram tonalidades frias que ajudassem na hora do descanso. Ao chegar na ilha da cozinha, a paleta é mais quente, acompanhando a animação da varanda: o amarelo e o laranja são os destaques dessa parte social da casa. Cada detalhe foi planejado de acordo com a rotina dos dois e o humor que as áreas do apartamento deveriam ressaltar.

O mesmo aconteceu com as plantas, posicionadas em pontos estratégicos da casa após a consultoria do Studio Tralha. “Eles nos orientaram a planejar as áreas verdes de acordo com o movimento do sol no apartamento e também com as cores frias e quentes”, explica Márcio. As frutíferas, a hortinha e as flores ficam na varanda ao lado do quarto, onde chega o sol matinal. A boa luminosidade do apê permitiu que um tanto de vasos também ficasse na parte interna, mas nesse caso a seleção priorizou espécies mais delicadas, diferentes daquelas resistentes que recebem o sol do meio-dia na varanda social.

Quem também aproveita bastante as áreas ao ar livre são os dois gatos do casal: “Ter gatos é uma delícia, eles ajudam a equilibrar o ambiente, são uma alegria. Com a pandemia ficamos o dia todo com eles. Eles já são mais velhos e sossegados, e o prédio é escalonado, sendo assim os apartamentos de baixo têm varandas como um bolo de casamento, então não é perigoso para eles. Desde agosto moramos aqui e eles estão acostumados. Quando viajamos ou saímos o apartamento fica totalmente fechado, por causa de chuvas e por causa deles”, os moradores explicam.

Entre a compra do imóvel em junho de 2019 e a mudança definitiva em agosto de 2020, o apê passou por essa extensa reforma e foi ganhando o jeito do casal, que pensou na decoração e usabilidade de cada cômodo como uma extensão da personalidade dos dois. Essa ideia de lar trouxe mais afeto e história para o apartamento: “Uma casa tem que transmitir o modo de vida de quem mora nela – e a nossa é bastante diversa. Temos cantos para qualquer humor ou necessidade”, conta Márcio.

Texto por Natália Pinheiro | Fotos por Maura Mello

Continua no Capítulo 2