Quanta memória e afeto cabe em um lar habitado por duas irmãs? A casinha de vila da Manoela e da Julia é a prova de que não se precisa de muita metragem para guardar esse tipo de coisa: “Por ser pequena, a casa pede que a gente tenha muita intimidade, mas crescemos juntas, então para nós isso é natural”, conta Manoela, que trabalha como diretora de arte em produções audiovisuais. Para ela, a mesma força feminina que sempre esteve presente na casa onde as duas passaram a infância ainda se reflete na morada atual: as personalidades das irmãs se complementam e contam histórias por meio de objetos, cores, lembranças e detalhes da decoração.

Foi Manoela quem primeiro se mudou para esse endereço na Vila Madalena, no ano de 2018, depois de muita procura por um espaço charmoso e dentro de suas expectativas. “Me deparei com muitas casas que já tiveram histórias, mas estavam reformadas de um jeito que se tornavam genéricas”, ela conta. Até que, um dia, após visitar 3 opções desanimadoras, a diretora de arte decidiu dar mais uma espiada no mesmo site de imóveis que vinha acompanhando há tempos. Foi então que encontrou o que buscava: uma casa de vila afastada da rua, com janelas de madeira e um pequeno jardim. Foi paixão instantânea e, no mesmo dia, a documentação do aluguel já estava entregue.

No primeiro ano, Manoela dividiu o espaço com um grande amigo — Stefano Carta — que a ajudou a transformar o imóvel em um lar em poucos dias. “As duas primeiras semanas foram bem intensas, mas depois disso a casa estava pronta: não tinha nenhuma caixa fechada e nenhum quadro fora da parede”, ela se lembra. Por ela trabalhar imaginando e montando cenários para filmes e produções, tudo aconteceu naturalmente, uma vez que os moradores não queriam que os planos de decoração se perdessem no tempo ou fossem deixados de lado, como algo para se fazer depois. Com a mudança, além da cor e da vida trazida pelos objetos herdados e garimpados, a cozinha foi pintada de azul e o quarto de Manoela recebeu um papel de parede.

“Em 2019, com a saída do Stefano e a chegada da minha irmã Julia, a casa acabou ficando um pouco mais feminina e, junto com a Ju, vieram as obras de arte e alguns objetos que ela trouxe da época em que morava em Londres”, Manoela explica. Como Julia Clemente trabalha com consultoria de arte, esse universo passou a fazer parte do dia a dia do lar, que ganhou obras como uma foto de Geraldo de Barros e uma máscara comprada na África do Sul.

Ainda que sejam irmãs e tenham referências parecidas, as duas moradoras possuem personalidades bem diferentes, que ficam evidentes na forma de se relacionar com o lar: enquanto Manoela criou um quarto romântico, com papel de parede e uma penteadeira antiga que a acompanha há 20 anos, Julia tem um estilo mais sóbrio, preferindo tons claros e objetos pontuais. Sobre o uso dos espaços, Julia é mais apegada ao corredor do lado de fora, onde toma seu café da manhã ao ar livre todos os dias; já Manoela passa mais tempo no quarto ou na mesa de jantar, onde gosta de receber seus amigos.

“De nossa casa de infância, lembro da jabuticabeira, da pitangueira e das tardes que ficávamos no jardim. Lembro de passar dias inteiros cozinhando e organizando as coisas quando era aniversário de alguma de nós. Fazíamos tudo nós mesmas, nada era encomendado. Eu cuidava do décor, a nossa irmã Sofia cuidava dos doces e a Julia se encarregava de imaginar os pratos mais inusitados, enquanto nossa mãe gerenciava tudo. Hoje vejo que nossa casa é um reflexo de todas essas vivências”, recorda Manoela.

Em seu lar, as irmãs sabem como ninguém ressignificar os espaços: “No lugar da varanda temos um pequeno jardim, e, ao invés da área gourmet, temos um corredor onde fazemos nossos almoços de domingo”, contam. Todos os dias, quando abrem as janelas para deixar o sol entrar ou acendem as velas para iluminar a noite, elas sabem que estão em casa, onde se sentem acolhidas e representadas.

Texto por Yasmin Toledo | Fotos por Leila Viegas