Slow living: a importância de desacelerar a vida

Como mudar nossos hábitos para sofrer menos com a pressão e a correria do dia a dia

É provável que, alguma vez na vida, você já tenha desejado que o dia tivesse mais horas para conseguir fazer tudo o que planejou, certo? Mas talvez você nunca tenha pensado em rever a sua relação com tempo – já que estar sempre apressado parece uma característica também comum entre os círculos de amigos e familiares. É justamente esse o ponto de partida de nossa proposta de hoje: um olhar atencioso para a forma como lidamos com o nosso ritmo, dentro e fora de casa. Para isso, convidamos a jornalista, pesquisadora e educadora Michelle Prazeres para bater um papo sobre o movimento slow, que defende um estilo de vida mais desacelerado.

Michelle é idealizadora do Desacelera SP – uma desaceleradora de pessoas e negócios – e está por trás da criação da Escola do Tempo e do Dia sem Pressa, o primeiro festival da cultura slow no Brasil. Mãe do Miguel e do Francisco, ela acredita no reencantamento do mundo por meio de pessoas, afeto, delicadeza, generosidade e por redes e movimentos muitas vezes silenciosos e discretos, que costuram tessituras de riqueza alternativa e solidariedade. Michelle também acredita na política e na importância dos cidadãos para a construção de um mundo mais humano, para receber e acolher as pessoas que já estão nele e aqueles que estão por chegar. Confira abaixo a entrevista que fizemos e ainda dicas incríveis que ela tem para compartilhar.

Por que pensar em slow living?

O que é o movimento slow?

Michelle: É um movimento pela desaceleração da vida. Ao contrário do que muita gente pensa (até com certo preconceito, aqui no Brasil), não é uma luta para sermos devagar e sim para sermos mais humanos, recobrarmos nossos sentidos, sairmos do automático. Então, não se trata de uma batalha contra a velocidade, mas sim contra a ideia de que ser rápido é o normal ou o natural. Desacelerar é se questionar quando a velocidade faz sentido e quando ela não faz e estamos correndo apenas porque é o que se espera.

Por que é importante falar disso?

Michelle: A importância de falarmos disso é que eu não vejo outra saída para nós como humanidade que não desacelerar. Construímos nossas vidas sustentadas em uma noção de progresso, avanço e crescimento predatórias não só com a natureza, mas com nós mesmos. Aliás, quando falamos de natureza, esquecemos que somos parte disso. Nos colocamos em um lugar EGOcêntrico, em vez de assumirmos que precisamos de uma visão ECOlógica. 

A importância de desacelerar está em nós. Veja o que aconteceu agora, com esta pandemia: paramos, mas não desaceleramos. Transferimos as nossas vidas para o mundo digital, a nossa sociabilidade para as telas e seguimos produzindo como nunca. Ou até nos cobrando ainda mais produtividade do que antes. O que estamos vivendo, para mim, provou que este desacelerar, real, consistente, coerente, é mais do que parar. Ele é este olhar para a necessidade de sermos humanos e, sobretudo, um olhar para a nossa relação com as pessoas e com o mundo do trabalho, que busca cada vez mais se apropriar integralmente do nosso tempo.

Como o movimento slow ganhou relevância na sua vida?

Michelle: Tem gente que encontra o movimento pela desaceleração da vida porque passou por alguma perda, alguma doença grave ou um “marco” de vida relacionado a algo ruim, como um burnout, acidentes, etc. No meu caso, os acontecimentos que me aproximaram do movimento foram as chegadas dos meus filhos. Costumo dizer que quando o Miguel nasceu o tempo encarnou.

Quando eu engravidei dele, comecei a pesquisar histórias de mulheres mães que flexibilizaram suas jornadas de trabalho, para ficar com seus filhos e, em 2011, criei um projeto chamado Empreendedorismo Materno, onde eu contava as histórias destas mulheres para outras, que queriam se inspirar.  Comecei um movimento de busca de autoconhecimento para ter o parto natural que eu queria, e este caminho de busca consciente pelas escolhas relacionadas à maternidade foi o meu portal para a conexão com minhas escolhas de tempo também.

Penso que o essencial para o slow chegar foi que eu estava atenta, observante. E como pesquisadora e jornalista, fui observando a minha experiência e buscando politizá-la, verificando a possibilidade de haver um sentido coletivo nela. Em 2015, eu e meu companheiro Edu começamos a perceber um movimento nosso de buscar uma vida simples, essencialista, de valorizar o tempo e as relações humanas, a convivência. Com a chegada do meu segundo filho Chico, em 2016, isso se intensificou.

E como surgiu o Desacelera SP?

Michelle: O Desacelera SP atua em processos de formação e reflexão; mobilização e ativação de rede e produção e curadoria de conteúdo relacionado ao universo do slow. Ele é um movimento que tem um sentido muito biográfico, porque nasce desta minha história. A partir de um mapeamento que fizemos, criamos o Guia Desacelera SP, indicando lugares, projetos, pessoas e organizações que estão conectadas ao universo slow em São Paulo.

Foi a partir disso que nasceu a Rede Desacelera SP, que atua pelo fortalecimento desse movimento. Reunimos esta rede em um evento anual, o Dia sem Pressa, o primeiro festival da cultura slow no Brasil. Hoje, temos também a Escola do Tempo, onde oferecemos apoio para a criação de culturas de cuidado in company e em ambientes de trabalho coletivos. Temos também o Podcast Desacelera, o primeiro podcast sobre slow living.

Como começar a desacelerar?

Você pode citar e explicar 3 ou 5 formas de desacelerar que podemos aplicar no dia a dia? 

Michelle: Não gosto muito da ideia das “fórmulas”, porque o desacelerar é justamente a antítese da fórmula. Mas entendo a necessidade do nosso mundo por dicas, então, reuni algumas AQUI.

Gosto da ideia de que cada pessoa vai, um dia, e se quiser, encontrar o seu próprio caminho para desacelerar. E ainda assim, desacelerar não pode ser mais uma pressão, mais um peso, mais uma coisa que vai te fazer sofrer. Desacelerar não pode ser mais uma meta na sua agenda, porque isso não faz sentido, então, eu diria que o caminho é: respire, questione, cuide de você, preste atenção no que te importa e encontre suas próprias pistas. Se a pressa está te incomodando, comece esta busca.

Como o movimento slow se desdobra em vários âmbitos da vida: slow travel, slow parenting, slow food, etc?

Michelle: O slow nasceu na Itália com o slow food, que é precursor de todo o movimento. As premissas do slow food relacionadas à alimentação (o BOM, o LIMPO e o JUSTO) inspiraram outros campos da vida para nascerem outras formas do movimento também, cada vertente trazendo os preceitos do slow para a sua realidade.

Então, o slow fashion é a transposição destas premissas para o universo da moda; o slow kids diz respeito ao slow olhando para a infância; o slow medicine traz estas ideias para o campo da medicina; o slow education trata disso no mundo da educação; o slow media (que é minha pesquisa de pós-doutorado) traz este olhar para o universo da comunicação.

É preciso entender que o slow não é um método ou uma fórmula que pode ser aplicada a diversos universos e sim uma espécie de lente que nos permite olhar com a perspectiva do cuidado, do simples, do humano, do sem pressa, para estes diversos universos. E em cada um deles vai fazer um sentido e ativar potências específicas.

Com o isolamento social, nossas casas também viraram escritório e até escola, o que pode aumentar o ritmo e o estresse. Como mãe de dois e adepta ao slow living, como você tem lidado com esse momento? 

Michelle: Eu e o Edu trouxemos o trabalho para a casa. No começo foi meio bagunçado e tentamos estabelecer uma rotina, mas percebemos que tudo mudava rápido, a quarentena se estendia por mais e mais tempo, então concluímos que não haveria um padrão. Ao invés de organizar uma rotina muito fixa, começamos um revezamento que não deixasse a gente angustiado. Nosso apartamento é pequeno e somos 4 pessoas, o filho mais velho tem avaliações da escola e não temos celulares e computadores para cada um. Acho que o fundamental é tentar achar uma sintonia sem muito apego, porque pode ser que a organização que temos hoje, não faça mais sentido amanhã. Ainda assim, somos muito privilegiados por estarmos passando bem, com parceria, trabalho e saúde.

Para quem se interessou pelo tema, você tem algumas indicações de leitura, sites ou perfis para seguir?

Texto por Yasmin Toledo | Fotos por Rafaela Paoli; Luiza Florenzano; Maura Mello; Nathalie Artaxo e Isadora Fabian | acervo Histórias de Casa. Retrato da entrevistada por Mariana Cavalcante.

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