Quando a historiadora de arte e curadora Gisela se mudou para Nova Iorque para iniciar seu mestrado, ela ainda não imaginava o que o futuro lhe reservava em terras norte-americanas. Hoje, muitos anos depois daquela primeira viagem, ela continua por lá — e muito bem acompanhada por seu marido, o documentarista Thomas Piper, e seus filhos, os gêmeos Otto e Fred, de 9 anos. Os quatro vivem no Brooklyn, em um apartamento de 140m², onde influências brasileiras se misturam às tradições locais e deixam o espaço cheio de referências pessoais que ajudam Gisela a matar a saudade de quem ficou por aqui.

O casal, que se conheceu há uma década em uma feira de artes, se mudou para o lar atual cerca de 2 anos atrás para estar perto das boas escolas públicas do bairro. Como o apê estava em ótimo estado, nenhuma reforma foi feita, mas isso não significa que a personalidade dos moradores não tenha transformado o espaço: “Eu adoro plantas e arte, tenho muitos cacarecos que trago quando viajo pra qualquer canto, então sinto que minhas casas sempre têm minha cara”, conta a historiadora, que considera uma sorte que ela e o marido tenham gostos tão parecidos. Em um apartamento repleto de quadros e objetos especiais, como as cerâmicas feitas pela própria moradora, a única regra para as crianças é bastante compreensível: brincadeiras com bola só estão liberadas no quarto dos meninos.

Uma curiosidade interessante é que, por ter amigos em comum com a antiga moradora do imóvel, a blogueira Joanna Goddard, a mudança de endereço fez com que as duas se tornassem mais próximas: “Ela continua aqui no bairro e mora muito perto de mim. Organizamos todo mês um encontro de amigas que chama ‘Soup Group’ – cada vez na casa de uma e todas colaboram com alguma coisa. Uma leva o vinho, outra os aperitivos ou a salada, e a que recebe faz a sopa. Assim fica fácil pra todo mundo”, ela diz. Aliás, Gisela adora receber visitas para festinhas e refeições, e acredita que deve isso à sua brasilidade. “Principalmente no inverno, ajuda muito a aquecer o coração”, a moradora fala, lembrando de um dos eventos que já se tornou uma tradição de fim de ano em sua casa: um jantar em parceria com outra amiga, Mariana Vieira, da Brigadeiro Bakery. Gisela brinca que enquanto Mariana cozinha, ela fica encarregada de agitar a festa.

Se a casa tem um gostinho de Brasil? Com certeza. “Outro dia ouvi o artista Anish Kapoor falando sobre ser indiano, mas morar em Londres há tanto tempo, e ele disse: minha mitologia é indiana. Eu gostei dessa frase. Moro aqui há 13 anos, já sou cidadã americana, mas minha essência será sempre brasileira. Desde as plantas, que dão um quê tropical, até a trilha sonora. Muitos dos artistas na parede são brasileiros também”, ela diz. Entre os itens que remontam à sua história está a pintura de sua bisavó, pendurada na parede da sala, ao lado do autorretrato feito pelo avô de Thomas. Gisela brinca que ver as figuras juntas, lado a lado, a faz ter uma espécie de preview do que ela e o marido podem ser daqui uns anos – porém com menos crianças na conta, já que sua bisavó teve 20 filhos ao todo.


Sobre o dia a dia no lar, a família se complementa nas tarefas através de uma rotina altamente comunitária: “Acaba que quando a gente não tem ajuda, a vida em casa é tipo uma dança — depois de um tempo cada um sabe sua parte e as coisas vão acontecendo com fluidez”, eles contam. Do lado de fora, o senso de comunidade continua, como em um bairro às antigas, com vizinhos que se conhecem e se cumprimentam na rua, senhorinhas passando o tempo nas calçadas e grandes encontros no parque no fim do dia. * Que tal conhecer o restante desse apartamento nova-iorquino? Acompanhe a história no Capítulo 2!

Fotos por Felco

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