A história da arquiteta Maria com seu apartamento em Perdizes começou bem cedo, antes mesmo dela nascer. O imóvel foi comprado por seus pais assim que se casaram, há 38 anos. Nesse endereço, ela e os irmãos tiveram as primeiras experiências de lar, com os primeiros amigos de condomínio e as primeiras memórias do conforto familiar. Quando ela se mudou, ainda na infância, o carinho pelo lugar permaneceu: “Essa energia boa ficou sempre na nossa memória e, talvez por isso, meus pais decidiram nunca o vender, pensando que um dia um dos filhos se animaria a morar lá”, conta Maria. E não é que aconteceu exatamente isso?

Por cerca de 30 anos, o apê ficou alugado, mantendo sua planta e acabamentos originais. Durante esse tempo, Maria cresceu, se formou em arquitetura, morou em Barcelona, casou com o geólogo Manoel Corrêa, e por fim se estabeleceu em Belo Horizonte, onde viveu por cinco anos. O que poucos sabiam é que desde a faculdade a arquiteta fazia planos secretos imaginando o dia em que reformaria o apartamento e voltaria a viver nele. Mesmo quando estava na capital mineira, esse pensamento continuava e ela passou a criar projetos fictícios para que o espaço pudesse recebê-la no futuro, dessa vez acompanhada do marido. Até o dia em que um desses projetos imaginários se transformou em uma reforma de verdade.

“Em fevereiro de 2016, decidimos voltar para São Paulo, na mesma época em que a inquilina que estava no apartamento se mudaria. O resultado foi que recebemos as chaves e literalmente em poucas horas já começamos a quebrar tudo”, conta a moradora. Por todo o histórico, o processo de obra foi especial e desafiador. Maria tocou a reforma enquanto ainda vivia em Minas e, para contornar a distância, contou com muitas ligações, e-mails, reuniões presenciais e apoio da mãe e do irmão, que é também arquiteto. No fim, ela gostou tanto da experiência que decidiu focar o seu escritório nesta área de reformas.

Para o apê se tornar tão aconchegante como é hoje, muita coisa mudou: a cozinha e um quarto foram abertos para a sala; o banheiro de serviço foi reposicionado; as proporções de certos cômodos foram ajustadas e nem mesmo as tubulações foram poupadas das alterações. Com o crescimento do bairro, marcado pela construção de novos prédios, a maior preocupação foi a de aumentar a incidência de luz nos ambientes, já que se tratava de uma obra no primeiro andar. “Acredito que as reformas têm um poder incrível de renovação de energias dos espaços, que refletem diretamente na vida dos seus moradores. Ao montarmos nossas casas, pensamos em como vivemos, na forma de nos relacionarmos com nossas famílias, nossos amigos, objetos, memórias e histórias”, conta Maria.

Da experiência em Barcelona, ela trouxe o jeito despretensioso de enxergar a beleza da simplicidade. Na casa, isso se reflete na estrutura aparente do pilar e das vigas e no tijolinho original do banheiro, que por décadas havia ficado escondido pelo revestimento anterior. A preocupação com os alinhamentos, a busca da leveza e o minimalismo de linhas e interferências vieram do antigo escritório em que Maria trabalhou, mais focado em desenvolvimento de projeto. Para ela, a oportunidade de criar a própria casa nos primeiros anos de carreira solo foi importante para que pudesse pensar sobre suas influências e entender melhor sua personalidade e assinatura como arquiteta.


Nas escolhas da decoração, o conforto e o afeto foram premissas máximas, por isso, muitos móveis e itens da casa são presentes de pessoas queridas: a mesa de jantar foi dada pelos cunhados; as cadeiras antigas eram do padrasto de Manoel; a mesinha lateral foi projetada pelo irmão de Maria, o arquiteto Venancio Alves; e as aquarelas são pinturas de sua mãe, Maria Tereza Magalhães, que é psicóloga e artista plástica. Como a moradora gosta de ambientes mais neutros, foi também a decoração que cumpriu o papel de distribuir cores pelos cômodos.

“Nosso lar é a extensão da nossa personalidade, nosso refúgio, o nosso esconderijo secreto, onde só deixamos entrar energia boa! Temos uma relação muito próxima com a casa, quase como um ente querido, para quem gostamos de dar tchau ao sair, cumprimentar ao chegar, elogiar quando está bonita. Posso até parecer meio doida, mas acho até que ela realmente sente e muda de personalidade quando cuidamos bem dela”, revela a moradora.

Fotos por Rafaela Paoli