Talvez uma das grandes ilusões do mundo da decoração seja achar que a estética é o que conta mais em uma casa, quando, na verdade, é algo bem longe disso. O arquiteto Murilo  já entendeu o que realmente vale: “Uma casa amada é um lar. Não importa o jeito, um lar é feito mais de amor do que de matéria. Tenha uma casa viva que permita o convívio entre quem a habita. Isso é um lar”. Por conta desse pensamento, em seus projetos sempre há uma preocupação em traduzir a essência dos espaços e das pessoas, principalmente quando a reforma é em seu próprio apartamento. Essa inspiração às vezes vem dos lugares mais profundos, como lembranças de criança. “A casa da minha infância me traz uma memória da madeira, o cheiro, a cor… uma luz mais tênue e indireta. Isso sem dúvida está presente em meus projetos. Tudo precisa ter um clima”, ele fala.

Na cozinha, por exemplo, o clima é de integração. Quando o arquiteto se mudou para o apê, há quase 1 ano e meio, ele encontrou um espaço grande, porém mal distribuído. Além disso, os azulejos não lhe agradavam, mas o piso sim – o que já era alguma coisa. Para driblar o revestimento das paredes sem precisar removê-lo, Murilo usou a mesma ideia do banheiro: os azulejos receberam massa e pintura por cima. Os armários originais em bege, que também não combinavam com seu estilo, não foram substituídos, apenas ganharam adesivos pretos nas portas e puxadores de couro feitos pelo próprio morador. Pronto! Já ficaram com um visual totalmente diferente.

Outro detalhe especial da cozinha é a ilha central desenhada por Murilo. Com pés em ferro e tampo de ardósia, ela virou o principal apoio do ambiente e ainda traz um ar industrial à decoração. Quanto às cores, o morador brinca que elas acabaram o escolhendo primeiro. “O básico nunca erra. Ter uma base neutra te permite renovar sem descartar, investir em clássicos e focar a ousadia nos objetos de design. Sobre o tom mostarda, ele me elegeu na verdade. Apareceu em objetos pela casa, nos temperos, nas roupas. Quando precisei de uma cor ela já estava na minha vida. Foi só ficar atento”, diz. Objetos criativos se misturam a utensílios cotidianos, como o hanger e o bowl de cordas criados pela designer Drê Magalhães: “Eles marcam o início de uma parceria e amizade entre nós”.

No quarto, onde o branco traz uma aura luminosa, o mais importante era criar uma sensação de leveza e frescor. Murilo queria um quarto aconchegante sem ser quente, então aproveitou o piso de taco escuro e a estante de madeira maciça existentes, mas acrescentou peças com design mais atual, como o cabideiro em tom coral fluorescente. Assim tudo fica menos formal. Em uma das prateleiras da estante, o porta-retratos antigo é uma lembrança querida de família. Ele traz a fotografia do casamento de seus avós e costumava ficar na casa deles em cima do piano – era um objeto desejo do arquiteto quando criança.

A bem-vinda dose dramática na decoração do quarto fica por conta do painel da marca branco. papel de parede atrás da cama, assinado pela arquiteta Regina Strumpf. “O painel mudou tudo no quarto! A parte ruim é ter que dormir de costas para ele. Estou quase virando a cama”, ele brinca. “Eu gostei muito do efeito “traço” que o fundo branco criou. Parece que o desenho foi feito direto na parede”.


Não é preciso definir o apartamento do Murilo com um só estilo. A decoração de fato tem um quê urbano e industrial, mas por outro lado possui muitos elementos vintage, o frescor das plantas e detalhes de grande impacto, como a cor da cozinha e o papel de parede do quarto. Tudo isso misturado é o que dá graça e vida a esse lar. Isso sem contar os objetos especiais, as memórias herdadas e as histórias vividas ali, é claro. * Não perca na parte 3 da matéria: dicas inspiradas na reforma de baixo custo realizada pelo morador.

Fotos por Isadora Fabian, do Registro de Dia a Dia