Já que ainda não podemos viajar por conta da pandemia, que tal ir para Gana sem sair de casa por meio do relato da experiência de voluntariado da educadora Michelle Gueiros, que tem a fotografia como paixão e nos leva para Cape Coast com seu olhar?? A trajetória de Michelle pelo continente africano é extensa, marcada por trabalhos voluntários e experiências como turista e moradora, então não faltam histórias interessantes para ela compartilhar. Dessa vez, a cidade de Cape Coast é o nosso destino final, mas a matéria deixa também uma enorme vontade de visitar mais lugares ao redor. Além disso, vale a pena conhecer também 3 organizações brasileiras que fazem trabalhos voluntários ligando o Brasil ao continente africano.

Gana por Michelle Gueiros

Me apaixonei pelo continente africano há 9 anos, quando fui fazer o meu primeiro trabalho voluntário em Moçambique. Em 2016 voltei, daquela vez para morar. Vivi meses inesquecíveis e essenciais para uma mudança de olhar e de vida. O território africano já vinha conquistando o meu coração desde então. Depois de retornar ao Brasil e passar três anos imersa na cidade de São Paulo, levei meu coração para Gana: foram duas semanas de trabalho na clínica Autism Compassion Africa, o primeiro centro no Oeste da África a atender crianças com autismo, implementando intervenção baseada na análise do comportamento aplicada, tratamento baseado em evidências. Hoje sou pedagoga e especialista em análise do comportamento aplicada ao autismo e atrasos no desenvolvimento. Esse trabalho voluntário fez parte da finalização da minha pós-graduação pela Universidade Federal de São Carlos.

A ACA fica situada em Cape Coast, a antiga capital de Gana, a cerca de quatro horas da atual capital, Acra. A própria clínica se encarregou do meu transporte, junto com mais duas voluntárias americanas. Para quem vai à Cape Coast a turismo, é possível fazer tours privados saindo da capital, mas se você quiser mesmo entrar no clima local, vale pegar os famosos tro-tros: vans que vão parando pelas cidades no caminho. Os tro-tros partem da capital em direção sudoeste ao longo da costa e, dependendo do trânsito, a viagem pode demorar de quatro a seis horas.

Cape Coast, que é banhada pelo Golfo da Guiné, é apaixonante e talvez um pouco intrigante para quem pisa no continente africano pela primeira vez: lojas, barracas, casas de taipa com telhado de palha e casas de alvenaria criam uma confusão arquitetônica. É uma cidade para explorar, com ruas e vielas no centro antigo e um genuíno senso de comunidade que é possível sentir logo no primeiro momento.

Não há uma rotina fixa quando se é voluntário. Você sempre será útil de alguma forma. Além de acompanhar de perto as crianças em seus programas individualizados, registrei intervenções, preparei brincadeiras para os momentos em grupo, ajudei na cozinha e atualizei o site da clínica com fotos tiradas por mim do local e dos funcionários. Todos os dias após o horário de trabalho, era possível caminhar e sentir um pouco da cidade.

A cidade é viva. Os mercados de rua são agitados e, andando perto do mar, é fácil ver barcos de pesca em tons pastel cercando as praias. Mulheres dançam no meio da rua no final do dia, enquanto as crianças correm de um lado para o outro. Tons terrosos se misturam com a variedade de cores dos tecidos tradicionalmente conhecidos como Kente, que são produzidos pelas etnias Axânti e Ewe, e feitos de algodão do norte de Gana. Os tecidos são fascinantes e usados para tudo: cobrir estofados, produção de roupas, acessórios e slings. Se você tiver tempo na cidade e quiser uma lembrança autêntica, a dica é comprar um Kente e procurar costureiras. Elas costumam produzir peças de um dia para o outro.

Nos finais de semana, quando a clínica estava fechada, pude conhecer alguns lugares que deixaram o meu tempo em Gana ainda mais especial.

4 lugares para conhecer:

  1. Praia de Ko-sa: A praia de Ko-sa fica localizada perto de uma pequena vila de pescadores chamada Ampenyi. Ao se aproximar da vila, já é possível ver pessoas acenando e falando “Akwaaba”, que significa “bem-vindo”, além de crianças que gostam de ensinar palavras em Fante para os turistas. É uma praia apropriada para banho, com águas cristalinas e ondas mais tranquilas.
  1. Castelo de Cape Coast e Castelo de Elmina: Os dois castelos são Patrimônio Mundial da UNESCO e desempenharam um papel significativo no comércio de ouro e pessoas escravizadas. São considerados os maiores, mais antigos e mais bem conservados castelos europeus da África Ocidental. Dentro do castelo de Cape Coast fica o Museu Histórico da África Ocidental, que contém uma coleção de objetos de arte e cultura, incluindo tambores cerimoniais, mosquetes e cerâmicas antigas.
  1. Parque Nacional Kakum: O parque é conhecido por ser o lar de elefantes e muitos outros animais em extinção. Lá é possível fazer a Canopy Walkway, uma caminhada por pontes suspensas feitas de cabos, cordas e tábuas de madeira 30 metros acima do solo da floresta, com direito a vista para as copas das árvores. É um pouco assustador para quem tem medo de altura. Durante a caminhada, o guia explica o significado social, cultural e medicinal das plantas e árvores. Além disso, também é possível passar uma noite em uma casa na árvore construída no meio da floresta.
  1. Baobab House: Além de ser uma lojinha no centro de Cape Coast que vende todos os tipos de produtos ecológicos e reciclados, incluindo cosméticos, obras de artes e tecidos, o espaço possui um restaurante vegetariano com pratos com tofu, saladas e frutas — tudo produzido na própria fazenda orgânica. Todos os lucros são para a Baobab School for Trades and Traditional Arts, onde as crianças têm a oportunidade de aprender atividades como agricultura medicinal, compostagem, reciclagem, criação de móveis e acessórios em bambu e muito mais.

3 organizações de trabalho voluntário

E se você já pensou em fazer trabalho voluntário, mas não sabe por onde começar, te convido a conhecer 3 organizações brasileiras que realizam ações ligando o Brasil ao continente africano, e que podem contar com a sua ajuda tanto no atual momento que estamos vivendo, quanto no futuro.

  1. Hai Africa: Organização sem fins lucrativos que nasceu após uma viagem de voluntariado à África e agora faz parte da transformação da comunidade de Kabiria, região nos subúrbios de Nairobi, capital do Quênia. Eles promovem o desenvolvimento de mulheres por meio de novas capacitações profissionais e de crianças por meio da educação humanizada e da nutrição saudável. O Hai também apoia a economia local efetuando todas as suas compras no comércio da própria comunidade.
  1. Reviva: Organização sem fins lucrativos fundada em 2013 responsável por implementar e desenvolver ações que têm o intuito de gerar água potável, educação e renda em comunidades remotas no Brasil e na África, contribuindo de maneira eficiente para a transformação dos espaços em que atua.
  1. Pés Livres: Organização sem fins lucrativos que atua na Tanzânia, levando educação e oportunidades para crianças e mulheres que vivem em situações de vulnerabilidade. A ONG mantém uma escola primária, oferecendo educação humanizada para 56 crianças. No Brasil, criaram a Livraria Solidária, com voluntários que ajudam a buscar livros e também parceiros, e atuam como ponto fixo de arrecadação em São Paulo.

Texto e fotos por Michelle Gueiros