As janelas verdes e a cobertura com pilares azuis chamam a atenção de quem passa pela Bela Vista, bairro de São Paulo. Dá para perceber que tem algo de especial ali: o prédio é antigo e mistura diferentes estilos em sua arquitetura. A torre alta e chamativa foi projetada por Artacho Jurado na década de 50 e se transformou em um dos ícones da cidade. Sim! Estamos falando do Edifício Viadutos. Um dos sonhos da diretora de arte Nicolle de Bari e do professor de filosofia Júlio Canhada era morar no prédio, mas não era fácil encontrar um apê disponível entre os seus 27 andares. Até que um amigo que já vivia no condomínio deu a dica para o casal: “Ele nos contou sobre esse imóvel à venda, mas o apartamento não estava anunciado em nenhum lugar. A então proprietária, Dona Marly, já idosa, apenas fazia visitas por indicação”, contam.

O casal e a Dona Marly se deram bem logo de primeira, o que foi crucial para a venda do imóvel. A proprietária queria ter certeza que entregaria o apê para alguém que realmente cuidaria de seu antigo lar, que ficou sem uso por dez anos à espera do novo morador ideal. “Esse aspecto afetivo contou muito”, eles dizem. Assim que Nicolle disse para sua avó que se mudaria com Júlio para o Edifício Viadutos, a reação foi positivamente inesperada: “Quando comecei a descrever a localização, ela logo me interrompeu e perguntou ‘Vocês vão morar naquele prédio lindo da praça com as janelas verdes?!’. Eu disse que sim, e ela me contou o quanto o edifício era marcante para sua geração e que sempre pensava que moraria nele quando o avistava ao passar pelo Centro”.

A mudança para o novo endereço era esperada e tinha tudo para dar certo, mas o espaço precisava de muitas reformas, já que foram dez anos com tudo absolutamente fechado. E foi aí que a amiga Suzana Jung, arquiteta do SuzanaJungStudio, entrou em cena: ela deu o projeto do apê de presente para o casal. “Ela conhece bem o meu gosto e sabia que poderíamos brincar bastante com cores, formas e diferentes texturas”, conta Nicolle, que também é formada em arquitetura e ajudou a pensar em todos os detalhes. A parte hidráulica e elétrica foi refeita, os pisos e janelas foram trocados, e a parede da entrada, entre a sala e a cozinha, deixou de existir. Apesar do quebra-quebra, o resultado deixou o casal ainda mais encantado pelo apê, que ganhou um banheiro bem colorido e um escritório com paredes de vidro.

O home office exibe um item que era prioridade para Júlio no apê: a estante. Além de armazenar todos os exemplares do professor, ela alcança o teto e cria a impressão de uma parede de livros entre a sala e o quarto. Esse móvel foi adaptado para o ambiente, assim como grande parte da decoração que veio do antigo apartamento onde o casal morava antes. E os objetos de afeto estão por toda a casa, como as fotografias tiradas pelo pai de Nicolle. “Um item que gosto muito é a máscara de papel machê no quarto. É uma máscara para as comemorações do ano novo chinês e eu não encontraria nada parecido com isso novamente. Foi então que decidi comprá-la durante a viagem e carregá-la comigo na mochila por pelo menos 10 cidades diferentes até chegar finalmente em casa”, ela lembra. Aliás, as viagens são a maior inspiração dos dois quando pensam em decorar, mas uma saída até um bairro próximo de casa já é motivo para manter os olhos atentos – coisa que Nicolle faz diariamente como cenógrafa: “Eu observo muito por onde passo, e tudo que eu vejo acaba virando algum tipo de referência dentro da minha cabeça”.

Ela conta que o jeito de pensar a morada foi um dos motivos que a fez migrar da arquitetura para a cenografia e direção de arte. Por isso, sempre surgem novas maneiras de usar cores, objetos e móveis dentro do apê. Outra novidade feliz, dessa vez vinda durante a pandemia, foi a chegada do Zazá, o cãozinho que se transformou no xodó do casal e companheiro para todas as horas. “O apê acaba por reunir muitas coisas que nós gostamos num lugar só! Talvez esse seja um dos significados de casa”, refletem. Seja do lado de dentro, com a iluminação natural tomando conta de todos os cômodos, ou na parte externa, admirando a fachada incrível do Edifício Viadutos, para eles o ato de morar é cheio de significado.

“Para o Júlio, além de ser um lugar de descanso, segurança e conforto, a casa é também espaço de reflexão e criação. Para mim, ela é o local que me permite expressar as mais diversas partes de mim mesma e também se transforma junto comigo”, Nicolle diz. Nesse apartamento, a altura do 23ª andar afasta os moradores da agitação da cidade, mas proporciona uma vista incrível, possibilitando conviver com as duas facetas de São Paulo: “Sempre me impressiona ver a imensidão da cidade e a serra da Cantareira lá no final do horizonte”. Entre a diversidade pulsante do Centro e a história de um prédio que abriga outras tantas jornadas, Nicolle e Júlio constroem uma noção própria de lar: “É o lugar onde podemos nos reconectar com nós mesmos através do espaço”. E isso é o que torna tudo ainda mais único.

Texto por Natália Pinheiro | Fotos por Felco