Um lar autêntico, criativo e aconchegante. Assim é a casa da designer Julia, em uma vila no bairro de Pinheiros. Para quem entra pela porta já à procura da sala, o sobrado traz uma surpresa: em seu layout, a área social fica no piso superior, enquanto o térreo é reservado para o quarto e o escritório: “Me sinto morando num apartamento pequeno e prático, mas, quando quero, tenho acesso a uma área social grande e estilosa, com os ângulos do telhado à vista e um plano aberto que não é interrompido por uma escada”, Julia diz.

Ali perto, na mesma vila, estão seus irmãos, cunhadas e sobrinhos, o que cria um cenário bem agradável na vizinhança, sempre com crianças se divertindo e aproveitando a vida na rua sem carros. No dia a dia, Julia gosta de observar o movimento do lado de fora enquanto trabalha no home office e adora quando esbarra sem querer em algum de seus sobrinhos durante suas idas e vindas. Foi por esse clima aconchegante que a designer já sabia que queria morar nesse endereço mesmo bem antes de se mudar de fato: “Eu já conhecia a vila muito bem e já dava como certo que um dia viria morar aqui”, ela se lembra.

Quando visitou sua casa pela primeira vez, o espaço estava bem detonado, mas como Julia já tinha a ideia de inverter os pisos, ela sabia que precisaria de uma grande reforma de qualquer maneira, e pra isso contou com a ajuda das arquitetas Tania Helou e Melissa Kawahara: “Como a vila se localiza entre muitos prédios, ela até pega sol, mas não tanto. Além disso, gosto de ter meu quarto bem escuro para dormir, por isso achei que fazia sentido que ele ficasse embaixo, e a sala e a cozinha em cima”, ela diz.

Para decorar, a designer se inspira por todos os lados: gosta dos clássicos do design, mas não a ponto de a casa se tornar óbvia; adora peças que deixam a rotina mais prática, mas se encanta com objetos ‘inúteis’ que carregam memórias pessoais. Em especial, Julia é apaixonada por arte, por isso se alegra em poder decorar sua casa com obras assinadas por muitos amigos: “Gosto bastante de livros-arte e da interação que eles convidam, então a estante foi desenhada pensando nisso”, ela conta. De fato, os livros estão por todo o lugar, colorindo os cômodos com suas capas e histórias.

Ao longo do ano, Julia distribui sua vida entre Londres e São Paulo, por isso tem uma morada em cada cidade: “Na Inglaterra, vivo numa casa que divido com amigos e que tem uma vida mesmo quando não estou lá, pois não gosto de deixar um lugar fechado e vazio. Já o meu endereço aqui em São Paulo, sempre acaba emprestado para alguém”, explica a designer, que faz questão de manter os ambientes habitados e movimentados. Não à toa, esse gosto por ver a casa viva se reflete também na rotina de Julia, que ama receber seus amigos e acredita que essa é a verdadeira vocação de seu lar.

Com a pandemia, Julia passa muito tempo ouvindo música e aproveitando a companhia de seus gatos, o Ártico e a Tropical: “Eles trouxeram uma qualidade de vida absurda. É uma vida que também acontece aqui neste espaço fechado e me deixa bem mais confortável. O Ártico chegou primeiro e tem uma personalidade que lembra um cachorro: gosta de estar ao meu lado, de carinho e de brincadeiras. Depois adotei a Tropical para fazer companhia a ele: ela não gosta tanto de humanos, mas é apaixonada pelo Ártico, e ele por ela. Então sinto como se ela fosse a gata do Ártico, e o Ártico fosse o meu gato”, a moradora brinca.

Com boas referências, gatos, praticidade e detalhes cheios de vida, a casa é um refúgio perfeito e sob medida: os espaços fogem do senso comum e não poderiam ser mais aconchegantes. Depois de morar 11 anos no Rio de Janeiro, 11 anos em São Paulo e 11 anos em Londres, Julia acredita que finalmente encontrou a equação ideal em sua vida nômade – que na verdade não é tão nômade assim.

Texto por Yasmin Toledo | Fotos por Gisele Rampazzo