Para contar essa história é preciso voltar no tempo para uma época em que as ruas do Brooklin, na zona sul de São Paulo, eram de terra batida e as casas eram divididas por cercas de arame. Foi nesse período, em 1952, que um casal se mudou para uma das residências do bairro com o seu filho de apenas 1 ano de idade. Ali, essa criança teve uma infância feliz e acompanhou todas as melhorias da região — muitas delas coordenadas pelo seu pai e outros moradores por meio de abaixo-assinados. Essa mesma criança cresceu, casou, teve filhas e netos… Hoje Moacyr não é mais um menino, mas a casa nunca deixou de ser habitada pelos pequenos. Ele e sua esposa Gislene se enchem de orgulho por terem uma família tão unida, com os netos sempre por perto, brincando pelo jardim e animando os dias como só eles sabem fazer:

“Nossas duas filhas, Isabel e Paula, tiveram uma infância repleta de brincadeiras. Isabel adorava desenhar em folhas que fixávamos nas paredes e Paula andava de patins e bicicleta por todos os cantos. Quando Paula se casou, morou por seis anos em nossa casa e seus dois filhos viveram a primeira infância junto a nós. Anos mais tarde, fomos presenteados com mais uma integrante, a Lorena, filha da Isabel, que vem nos visitar sempre”, conta Gislene, que tem origens mineiras e levou para esse lar muitos aspectos da tradição hospitaleira de sua cidade natal, Itajubá.

Com tantas histórias e com a família sempre crescendo, foi natural que a casa passasse por melhorias ao longo do tempo e, entre elas, a última reforma foi comandada por uma arquiteta especial: ninguém menos do que Isabel Amorim, a filha de Moacyr e Gislene. O teto da construção, que ainda conservava seu forro de estuque, estava com rachaduras e, com a sua remoção, a estrutura original de madeira foi revelada: “Nossa filha nos motivou a deixar tudo aparente, ampliando o pé-direito e trazendo uma rusticidade gostosa para os ambientes. Amamos o resultado”, diz o casal. Com novos ares e mais amplitude, a sala de estar ganhou luz natural e o quarto foi todo redecorado.

No jardim, eles foram presenteados com mais uma área de convívio, onde podem desfrutar o tempo com as crianças e colher temperos e ervas direto do canteiro. Para o casal, esse conjunto de detalhes mudou sua relação com a casa, que ficou bem mais acolhedora. Já para Isabel, realizar a reforma do lugar onde cresceu é como devolver para sua família um pouco de todo o carinho e dedicação que ela recebeu ao longo da vida.

Gislene conta que a casa tem gosto de comida mineira, com pães de queijo, tutu de feijão, couve bem fresquinha e torresmo crocante saindo do forno. De Minas Gerais, esse lar também herdou uma forte cultura religiosa, com muitos santinhos pelos espaços, além de uma decoração rústica, com tijolinhos aparentes, piso de ardósia e até um painel de ladrilhos hidráulicos — que faz Gislene se lembrar de seu avô, que possuía uma pequena fábrica e confeccionava ladrilhos em vários formatos e cores.

No dia a dia, o movimento na casa começa cedo, com Moacyr saindo para comprar pão e o cardápio do almoço já sendo definido logo pela manhã. Gislene trabalha em home office e, no fim da tarde, ela e Moacyr gostam de andar de bicicleta pelo bairro.

“O que faz dessa casa um lar é todo o amor e acolhimento que sentimos quando entramos por sua porta. As paredes contam histórias e mostram a passagem do tempo. Não nos importamos com as marcas, manchas e imperfeições que existem nelas. Muitas provocadas pelas bolas de futebol, pelo guidão da bicicleta ou pelas canetinhas coloridas. Aqui tivemos muitos momentos felizes e tristes, erramos, acertamos, discutimos, perdoamos, festejamos, choramos juntos, rezamos e nos unimos como família”, eles contam. Nessa casinha de cor terracota, com cheiro de amor e gosto de comida mineira, não falta espaço à mesa: sempre cabe mais um.

Texto por Yasmin Toledo | Fotos por Felco