A Carol Ferraz, idealizadora do Onde eu Deixei?, é a prova viva de que a organização pode promover grandes mudanças: de bagunceira convicta, ela se tornou uma consultora treinada por ninguém menos que Marie Kondo e pós-graduada em Psicanálise e Semiótica. Encantada com a possibilidade de levar mais qualidade de vida para as pessoas, ela acredita que a relação que temos com os objetos conta histórias importantes sobre nós, por isso a organização deve acontecer de dentro para fora. Para ela, o assunto é menos sobre caixas organizadoras e mais sobre escolhas feitas com amor e acolhimento. Vem conferir a conversa que tivemos e algumas dicas incríveis para aplicar em casa (e na vida)!

Você se apresenta como uma ex-bagunceira convicta e, atualmente, é uma consultora do método Marie Kondo. Como isso aconteceu?

Carol: A minha consultoria chama Onde eu Deixei? porque era a frase que eu mais usava no dia a dia.  Desde pequena sempre fui muito bagunceira. Dizia que minha prioridade era o trabalho, era minha vida social…, mas no fundo, sentia frustração por não conseguir manter a casa minimamente organizada e estresse por sempre perder tempo procurando ou arrumando coisas.

Até que em 2016 eu perdi um chaveiro que significava muito pra mim. Atravessei a cidade para pegar uma cópia da chave depois de um dia exaustivo e, quando cheguei em casa, prometi que eu nunca mais perderia tempo por causa da minha bagunça. Apesar de na época ninguém conhecer a Marie Kondo, uma amiga japonesa tinha me falado do método e, como eu já tinha tentado de tudo, resolvi aplicar. Passei dias me organizando: muita coisa saiu de casa e quando terminei eu estava leve.

Com os dias, percebi que minha vida tinha ficado TÃO mais fácil que eu decidi ajudar outros bagunceiros a terem esse sentimento também. Além de estudar com a Marie Kondo, também estudei a organização tradicional para entender porque o modelo nunca tinha funcionado comigo. Junto disso, cursava Psicanálise e Semiótica e comecei a entender que a abordagem da organização era engessada e conversava com aquela maneira antiga de relação com a casa: a mulher que priorizava o cuidado com o lar. Não temos mais lugar para isso e hoje um modelo de organização repleto de complicações está fadado ao fracasso.

Como a organização se transforma em qualidade de vida?

Carol: Tudo o que a gente tem, a gente administra. Seja com tempo, com dinheiro ou com energia de vida. O processo de organização nos dá a liberdade de escolher o que queremos administrar. Paramos de perder tempo com o que não é importante e focamos nossa energia no presente e nos nossos sonhos. Economizamos tempo porque sabemos onde nossas coisas estão. Economizamos dinheiro porque não compramos algo repetido por termos perdido, aprendemos a comprar melhor porque nos conhecemos. E, principalmente, diminuímos o estresse. Por último, quando encaramos anseios e objetos que não têm mais sentido para o que somos hoje, entendemos a importância de olhar para dentro, manter o foco no que realmente almejamos e nos faz feliz e aprender a dizer não quando necessário.

Qual a importância de organizar a casa de dentro pra fora? O que você quer dizer com isso?

Carol: A bagunça e o excesso não são a causa de um problema, eles são sintomas de que algo está acontecendo dentro de nós e, na maioria das vezes, isso está ligado ao medo da incerteza do futuro ou ao apego ao passado. Nada entra na nossa casa sem motivo, nem fica nela sem uma razão, mas os estímulos e atividades são tantos que não notamos esses movimentos.

Organizar a casa de dentro para fora é ouvir o que ela nos conta e acolher essa trajetória sem ficar presa a ela.

Quando voltamos ao passado, ela pode falar de uma infância com escassez. Talvez seja por isso que você compra tentando compensar ou tem medo de doar as coisas e precisar lá na frente? E os itens da vida imaginária? Aquele sapato belíssimo com um salto gigantesco, mas que você nunca usa porque é muito desconfortável. Ou o excesso de roupa de academia que te faz fazer hora extra para pagar e acaba perdendo as aulas. Será que representam um estilo de vida que te pertence ou é uma projeção do outro?

Essas são algumas situações que eu sempre encontro nos atendimentos e que provam o que a bagunça e o excesso se constroem a cada dia. É uma reação a como fomos criados, ao ambiente que estamos inseridos e como elaboramos emocionalmente o que vivemos. O processo também fala da qualidade das nossas relações. Será que a divisão de tarefas é feita de forma justa? Organizar de dentro para fora é ver a mudança não se limitar às portas dos armários. É sobre liberdade.

Mini guia para organizar a casa

  1. Defina um estilo de vida ideal: Você quer organizar a casa para quê? Quando bater dúvida em manter ou não um objeto, pense: esse objeto vai me ajudar na conquista do meu objetivo? Faz parte do meu estilo de vida ideal? SUPER TRUNFO: esteja sozinho (ninguém quer ser julgado por manter ou desapegar de algo) e concentrado.
  1. Organize por categorias em vez de locais. Isso evita aquela sensação de desânimo que encontrar as mesmas coisas em lugares diferentes nos causa. Siga as 5 categorias na seguinte ordem: roupas, livros, papéis, pequenices e itens de valor sentimental. SUPER TRUNFO: Item de valor emocional é uma categoria construída durante as outras. Tudo o que mexer muito com seu coração deve ser separado e triado só no fim do processo.
  1. Confie na sua intuição e escolha o que quer manter com base no que aquele objeto te traz. Tire as coisas de uma subcategoria do armário pra te ajudar a visualizar a quantidade. Pegue uma por uma junto ao corpo e pense: Me sinto confiante usando isso? Esse objeto me representa hoje? Sinto um quentinho no coração quando abraço ele? Me ajuda ou me atrapalha?
  1. Não separe as famílias dos objetos e use a lei do mínimo esforço. A gente não gosta de organizar, lembra? É só uma ferramenta. Então, se ajude colocando uma família de coisas em um lugar só da casa e de um jeito que seja fácil para pegar e mais fácil ainda de guardar. Inclusive com pressa. SUPER TRUNFO: preste atenção no que você odeia fazer quando o assunto é organização. Se você odeia dobrar roupas por exemplo, pendure. Não sofra pelo que não precisa.
  1. Use e abuse das caixinhas para organizar e preencha 85% do espaço deles com objetos da mesma família. SUPER TRUNFO: Segura essa vontade louca de comprar caixinha. Primeiro, faça a triagem de todas as categorias e depois pense em organizar. Muitos objetos vão virar organizadores repletos de significado.
  1. Desapegue com responsabilidade e sem enrolação. Esses objetos precisam ficar no lugar que você mais ama da casa pra te motivar a lidar com eles. Nada de jogar dentro de um quartinho e fechar a porta ou ficará lá para sempre. SUPERTRUNFO: Depois do processo, crie uma caixa de entrada e pendências dentro de casa. A primeira serve para colocar chave/carteira/celular/álcool. A segunda vai acomodar tudo o que precisa de uma providência sua, como consertos ou devoluções. Se voltar pro armário, a gente esquece e a bagunça volta.

Por fim, tem mais algum recado que gostaria de deixar para incentivar os leitores na missão de organizar a casa?

Carol: Encare a organização como uma maratona. Você vai cansar fisicamente e emocionalmente, mas mantendo a constância, pensando num quilômetro por vez e focando na felicidade de cruzar a linha de chegada, conseguirá terminar a corrida.

Um truque que uso muito com meus bagunceiros é dividir as categorias maiores em menores e sempre começá-las e terminá-las no mesmo dia. Assim ficará mais fácil concluir. Quando começar uma delas, termine no mesmo dia. Ver o resultado gerará uma sensação deliciosa de missão cumprida. Consequentemente, se sentirá motivado a continuar correndo até alcançar a linha de chegada.

Texto por Yasmin Toledo