No apartamento de Felipe Morozini, a arte urbana se mistura com a natureza, o caos da cidade é suavizado pela leveza do branco e até a pressa se dilui em meio à decoração divertida, ao mesmo tempo nostálgica e contemporânea. Esse contraste tão característico é o resultado de mais de 20 anos vivendo e criando arte no centro de São Paulo, com a vista diária para o Elevado Presidente João Goulart, conhecido como Minhocão – uma via expressa elevada que liga o centro da cidade ao bairro da Barra Funda, na Zona Oeste.

Desde sua inauguração, em 1971, o elevado se tornou um tema polêmico para os paulistanos. Se por um lado ele foi construído para facilitar o trânsito de veículos, por outro, moradores e especialistas questionam seus aspectos negativos, como a poluição do ar, visual e sonora. “Morar na frente do Minhocão é uma experiência única. Ela traz transtornos no sistema nervoso e respiratório, por conta do barulho e do monóxido de carbono em excesso, mas ao mesmo tempo é maravilhoso tentar transformar esse espaço em uma outra coisa. A possibilidade de ressignificar é gigante aqui”, conta o fotógrafo.

Foi por viver nessa região que Felipe sentiu uma necessidade pessoal de estudar e se aprofundar em temas urbanos, o que o levou a viajar o mundo para procurar entender o funcionamento de cidades sem a dependência dos carros e o que São Paulo poderia aprender com elas. Foi também por experiência própria que Felipe se envolveu com a associação Parque Minhocão, que defende a transformação do elevado em um parque urbano, com plantas, espaço para esporte e atividades culturais: “É uma luta política, artística e social. Diariamente estamos engajados em todos os pilares para que a transição aconteça de forma pacífica”, ele conta.

Atualmente a via expressa é aberta para carros durante os dias de semana, mas tem as noites, os sábados e os domingos reservados para o uso de pedestres, que ressignificam o espaço com caminhadas, passeios com os pets, música e arte. Para Felipe, o aumento das horas de lazer no Minhocão foi uma conquista importante, mas o principal desafio é fazer as pessoas entenderem que a cidade não precisa do elevado aberto para carros e que transformar o lugar em um parque beneficiaria a todos os moradores do centro e arredores.

Por meio de frequentes intervenções urbanas e artísticas, Felipe explora não só os limites de seu apartamento, mas também atua nas ruas da região, criando obras em paredões dos prédios e até no concreto do próprio Minhocão. “Isso representa um ponto, como em uma acupuntura urbana, um momento de respiro, a possibilidade de requalificar um espaço através da arte”, ele diz. Apostando no potencial de transformar por completo esse local e, dessa maneira, incentivar outras melhorias na cidade, o fotógrafo não tem medo de sonhar alto: “No futuro, imagino o Minhocão cheio de pessoas, com alta atividade cultural e social, muitas plantas, borboletas e pássaros”. 

Fotos por Rafaela Paoli