No centro de São Paulo, mais precisamente no Edifício Eiffel, planejado por ninguém menos que Oscar Niemeyer, a diretora de produção Maisa constrói a sua rotina em um duplex iluminado com vista para a Praça da República. Para a moradora, viver em um prédio tão simbólico e importante para a arquitetura da cidade acabou acontecendo por acaso, pois justamente ali ela encontrou os requisitos e particularidades que a conquistaram. “Foi uma questão de sorte. Dois pontos me fizeram decidir pelo apê: a área comum do prédio – uma espécie de miniquintal – e o fato de 2 grandes amigos também viverem aqui”, ela diz.

No edifício, a disposição invertida dos apartamentos chamou a atenção da produtora. Na maioria dos imóveis, os quartos foram acomodados no andar de baixo, enquanto a sala e a cozinha são acessadas pelo piso superior, onde fica a porta de entrada. Em seu duplex, a configuração não é diferente, e mesmo após uma intensa reforma, diversos elementos originais da construção foram mantidos. Sob comando do escritório de arquitetura Sub Estúdio, encabeçado por duas amigas queridas da moradora, a obra garantiu que os tacos de madeira existentes permanecessem na sala e no quarto, assim como o granilite no piso da escada. Para completar, os famosos cobogós da fachada foram restaurados na cozinha, filtrando a luz e a vista para a praça.

Após a reforma, Maisa conta que a decoração aconteceu sem que houvesse um planejamento. Para ela, nada tem lugar certo ou eterno, e o clima do apartamento vai se formando à medida em que encontra peças por aí e decide levá-las consigo. “Tem uma série de coisas, inclusive presentes muitos marcantes, que constroem o caráter da casa e pontuam momentos importantes da minha vida. Falar de um deles apenas seria esquecer dos outros. Mas hoje, nesse exato instante, o objeto que eu mais gosto é uma cobra que trouxe de Cabo Verde, entalhada por uma tribo senegalesa”, ela explica. 

Além desses itens que carregam muito afeto, as inspirações trazidas para o apê são geralmente ligadas às pessoas que a moradora admira: “Gosto das relações e conexões que algumas pessoas conseguem construir com arte, natureza, religiosidade…”, diz Maisa. Na casa, apesar de aproveitar todos os espaços igualmente, ela confessa ter o momento do banho como palco para seus insights e reflexões. Não à toa, o banheiro ganhou atenção especial das arquitetas durante a obra. Com poucas paredes e muita iluminação natural, o ambiente traz o aconchego e a tranquilidade que Maisa buscava.

O lar de Maisa é um lugar com muitos rituais – algo fácil de notar pela quantidade de cristais e velas espalhados pelos espaços. “A casa inteira é cheia de mandinga. Eu sou macumbeira, rs”, ela brinca. As plantas também fazem parte dessa rotina de cuidados e busca por bem-estar. A moradora diz que sua coleção de espécies ainda é uma humilde tentativa de ter um pedacinho da mata dentro do apê, mas a ideia é que o número de vasos só cresça com o tempo – afinal, para ela as plantas são fundamentais.

Pensado em cada detalhe, o apartamento traduz os sonhos e vontades da moradora. “O espaço foi completamente reformado. O processo foi longo e com muitas mudanças de rota. Nunca é fácil, mas no final vale a pena”, ela conta. De fato, chegar em casa e saber que é exatamente ali onde se queria estar é o que define o verdadeiro significado da palavra lar.

Fotos por Ricardo Faiani