Mais do que uma grande reforma, o que a Cynthia Gyuru e o Joaquim fizeram com seu apartamento foi trazer uma nova energia, porém sem apagar a história do lugar. Com menos paredes, a luz passeia pelos ambientes livremente e a sensação de respiro cresceu. “Logo no início do projeto, recortei em escala todos os móveis da casa e fiquei experimentando diversas composições na planta do apê. A decoração mesmo veio muito fácil, nem sei explicar. Aproveitamos tudo o que já tínhamos. Primeiro distribuímos o mobiliário que chegou da mudança, da maneira que eu havia testado com os recortes. Depois fui abrindo os objetos embalados, e de forma quase intuitiva espalhando-os pela casa, que é bastante inspiradora! Foi muito divertido, prazeroso e mágico decorar nosso novo lar”, a moradora diz.

Durante essa etapa de concepção da casa, as cores também tiveram um papel importante. A combinação entre rosa, verde e avermelhado com a madeira e o concreto veio de um jeito meio intencional, mas muito espontâneo ao mesmo tempo. Cynthia escolheu a dedo os tons de Formica dos armários e do granilite, porém a maioria dos objetos calhou de combinar sem que fosse preciso tanto planejamento. “Acho que ficamos com a paleta na nossa cabeça e inconscientemente buscamos peças que estão dentro dela, ou pelo menos em harmonia com ela. E acho que essa paleta não veio porque mudei de casa e precisava escolher cores. Ela de alguma forma já estava dentro de mim”, ela fala.

No endereço antigo, um dos dilemas de Cynthia era o escritório. Ele era pequeno, não tinha armários suficientes e ficava no meio da sala. Conclusão: ela precisou manter durante um bom tempo um ateliê fora de casa também, e acabava trabalhando nos dois espaços, o que era um tanto confuso. Assim que a família decidiu trocar de apartamento, ficou claro que um dos ambientes seria convertido em seu home office / ateliê, e assim foi feito. Apesar de buscar mais privacidade para trabalhar, a moradora não queria se isolar completamente, então a ideia foi quebrar a parede do terceiro dormitório para que ele fizesse parte da sala. Durante a demolição, um pilar de concreto se revelou, então ele acabou emoldurando a passagem entre os dois cômodos e ficou do jeito que Cynthia gostaria: junto, mas separado.

A decoração do ateliê segue a mesma linha afetiva de todo o apartamento. Fora a mesa de desenho, comprada especialmente para o ambiente, todo o resto foi reaproveitado. A cristaleira, por exemplo, acompanha Cynthia desde os 15 anos e já teve diversas funções – hoje guarda muitas histórias, como taças antigas, porcelanas herdadas de sua avó, porta-retratos e até garrafas de bebida para os dias de festa.

O desenho sempre fez parte do trabalho de Cynthia e aparece em situações diversas. “Nos últimos tempos, tenho trabalhado bastante com pintura em porcelana, técnica que aprendi aos 18 anos. Levo o desenho para a porcelana, criando peças autorais, que contam histórias. Em 2017, fui convidada pelo Sesc Campinas para pintar 5 grandes painéis de azulejos. Foi incrível desenvolver esse projeto. Também participo de feiras, realizo oficinas de pintura e desenvolvo projetos especiais”, ela explica.

Aconchego era a principal sensação que Cynthia gostaria de despertar em seu quarto, por isso toda a decoração foi pensada com isso em mente. A marcenaria tem seu lado funcional, porém a penteadeira encaixada no armário traz o toque gracioso. Ali a moradora reúne espelhos, objetos, desenhos, colares, plantas e outras delicadezas. Seu universo particular. A cama, que antes era revestida com Formica amarela, agora foi repaginada com uma folha de madeira, algo mais neutro. “O painel de tecido na parede é do Eduardo Sancinetti, e chama Encontro de Rios. Esse é um caso de trabalho artístico em que o título faz totalmente parte da obra. Me apaixonei pelo sentido do nome. Achei muito maravilhoso ter um encontro de rios em cima da cabeceira da cama. Muito poético, delicado e potente”.

Tom, o filho do casal de 5 anos, também se deu bem com a mudança de endereço. Seu quarto novo é 3 vezes maior do que o antigo, então ele ganhou bastante área para brincar no chão. Cynthia pintou planetas e estrelas sobre a cama porque Tom ama o espaço, então na hora de dormir eles leem histórias juntos enquanto as estrelas os espiam. Os móveis de madeira deixam a decoração mais calorosa e convidativa.

Cynthia acredita muito na força dos objetos. Na relação de afeto que se cria e nas histórias que carregam. Eles testemunham as mudanças na família, na vida e nos significados. Por isso, seu jeito de decorar é pensado e sentido, as duas coisas juntas. A casa dela, ainda tão recente, já guarda memórias inesquecíveis. E muitas ainda virão.

“Eu e o Joaquim lembramos de um dia especial. Ainda não havíamos mudado. Faltavam alguns detalhes, mas a marcenaria tinha ficado pronta e a iluminação também. Era noite, o Tom não estava com a gente, então tínhamos tempo. Entramos no apartamento e na hora sentimos a energia da casa, foi como se ela nos abraçasse. Ficamos brincando de testar as diferentes possibilidades de iluminação, abrindo todas as gavetas e portas de armários vazios, admirando o piso de madeira e granilite, os tacos dos quartos… era como se já morássemos lá. Uma sensação de pertencimento. Aquele era um dia de super lua e também eclipse. Subimos no último andar do prédio e tivemos acesso à laje, onde vários moradores estavam assistindo ao eclipse. Foi muito lindo. Uma vista incrível”, ela conta. Um belo jeito de começar essa nova fase, não é?

Fotos por Nathalie Artaxo