Todas as referências que Nabila foi acumulando ao longo de sua carreira como arquiteta parecem ter se encontrado em seu apartamento no Higienópolis. Além do mobiliário desenhado por ela e sua sócia, Camila, o projeto conta com um mix inusitado de acabamentos, cores e outras soluções que fogem do lugar-comum. O escritório tem tijolinho branco para dar um ar descontraído, o quarto clean exibe um piso colorido, o banheiro traz detalhes em serralheria… de fato, nenhum ambiente passa batido.

“Queria deixar o apê diferente, integrado e aconchegante. Um lugar legal para receber pessoas, com bastante luz indireta e amplitude, mas agradável para ficar sozinha também”, a moradora diz. E não é que ela conseguiu? * Você ainda não viu o Capítulo 1? Então leia a matéria AQUI. 

A arquiteta não é muito chegada em gastronomia, por isso para ela foi fundamental transformar a cozinha em um espaço mais atraente e social, como uma continuação natural da sala. Com a reforma, quase tudo foi mudado: o piso antigo foi trocado por um porcelanato que imita cimento queimado, a iluminação é nova, a janela foi pintada e a marcenaria atual também foi projetada por Nabila e Camila – até os pontos de água e gás foram deslocados. No entanto, o maior orgulho da moradora é a porta de serralheria com cristaleira, que delimita os ambientes sem isolá-los. “Esse elemento reflete muito o meu gosto e o que eu queria ter no apartamento”.

A arte faz parte do DNA de Nabila desde a infância: ela desenha, toca e projeta. “Como sempre gostei das artes, a arquitetura acabou sendo uma consequência. Acredito que ela deve questionar algo e promover alguma experiência interessante, em qualquer escala. Quando entrei na faculdade ainda não sabia, mas hoje já comecei a perceber que ser músico e arquiteto é algo bem parecido”, ela fala. Naturalmente, esse olhar de artista está presente em todos os cantos da casa – nas gravuras, nos materiais de desenho, nos móveis, nos instrumentos…

Meio escritório, meio ateliê, o espaço antes ocupado por uma suíte é agora o local onde a moradora concentra essas atividades. Graças à divisória de madeira e ao sofá-cama laranja, o cômodo também funciona como quarto de hóspedes. Para trazer aconchego e uma textura diferente, as arquitetas descascaram a parede atrás da escrivaninha, expondo os tijolos originais da construção. Outro detalhe que não passa em branco é a mesa de centro feita com palitos de sorvete, uma invenção dos tempos da faculdade que Nabila transformou em móvel.

Nabila queria um quarto que fosse integrado ao banheiro, seguindo o conceito de amplitude do restante do apê. Para conseguir fazer isso, ela precisou mudar a planta original: o banheiro principal foi invertido e a área do antigo quarto de serviço foi usada para o closet. “Queríamos deixar a arquitetura menos óbvia e estática, e mais inusitada e interativa para quem usa”, explica. Na época em que o projeto estava em andamento a moradora sentiu que faltava alguma coisa para arrematar a volumetria do ambiente, então ela e Camila chegaram à conclusão de que seria legal colorir uma faixa do piso com acabamento epóxi verde.

O criado-mudo, na verdade batizado de Criado Muda, é uma criação do Estúdio Minke, o escritório de Nabila e Camila. “Essa peça veio antes do apartamento, mas sua estética é muito parecida com o resultado da reforma”.

Com paredes de vidro e caixilhos pretos, o banheiro realmente se abre para o quarto, ganhando mais luz natural e integração visual. “O banheiro e o box com forro de madeira se tornaram elementos decorativos, e essas relações espaciais deixam o projeto muito mais dinâmico e interessante”.

Agora que a reforma está completa, Nabila aos poucos vai ocupando o apê com suas histórias – novos quadros, novas plantas, novos livros… Quanto mais ela interage com os espaços, mais personalidade o lugar ganha. “Quando penso em um lar, penso em algo orgânico que foi evoluindo, com memórias à longo prazo”.

Fotos por Gisele Rampazzo