A fluidez e a leveza parecem tomar conta do apartamento em que moram Manoel, diretor financeiro, e Cainã, head de marca. O casal vive no edifício Eiffel, o último projeto residencial de Oscar Niemeyer em São Paulo. Esse prédio em si já é uma história à parte: foi planejado e construído na década de 1950, em frente à Praça da República. Na entrada, a galeria traz a memória de uma cidade que essa região do centro ainda preserva, como notam os próprios moradores: “Embaixo do Eiffel, há lojas de imigrantes africanos, botecos e lotérica, por exemplo. Conviver com essa diversidade é bem interessante. A vida no centro é agitada, com pluralidade e dá para fazer tudo a pé”, elogia Cainã.

Porém, quando os dois viram as fotos do apartamento, disponível para alugar, em um anúncio, não tinham ideia de que se tratava do famoso edifício. Na visita, se surpreenderam mais um pouco: a entrada do duplex é no segundo andar, onde fica a área social com sala de estar e cozinha. A escada leva os moradores para o andar de baixo, na área mais reservada, com o quarto. A ideia é inteligente e muito prática, já que ninguém é incomodado durante a noite. “Achamos o formato perfeito, pois existe a vantagem de o andar de cima ser seu também, então não temos problema de barulho. Além de não ter a preocupação de incomodar o vizinho de baixo também. Nós nunca tínhamos morado em um duplex, gostamos bastante da dinâmica”, eles dizem.

O apê já havia passado por uma reforma em 2016, comandada pelo escritório Pianca Arquitetura e Rafael Urano. Por isso, o casal apenas trouxe os móveis de cada um para o espaço e pronto. Os dois se conheceram em 2017, mas resolveram dividir o mesmo teto no meio do ano passado, em 2020. Assim o lugar foi se transformando aos poucos, em conjunto. O Cainã é uma pessoa mais propensa ao minimalismo, então sua única exigência era a existência de um carrinho para cuidar das ervas e temperos. Já o Manoel possuía mais mobília e alguns objetos, o que o tornou responsável pelo primeiro passo na decoração.

Os garimpos também ficaram na mão dele, que encontrou peças únicas para o novo lar. O estilo modernista está bastante presente, mas Manoel explica que, apesar dessa tendência ter surgido conforme o apê foi ganhando forma, tem um pouco de tudo: “Nós temos uma diversidade de mobiliário, desde um sofá Gelli anos 1950 a poltronas do Percival Lafer anos 1970. Na decoração, vamos de um móvel feito de tijolos pelas nossas próprias mãos a uma poltrona reedição da Lina Bo Bardi. Gostamos muito de móveis modernistas, mas, na verdade, tudo é bem diverso”.

O que ajudou o casal a inserir personalidade no apartamento com peças tão únicas foi o interesse pelo garimpo desses itens. Tanto que o Manoel criou a loja online Antônio, com uma seleção especial incluindo objetos antigos, novos, adquiridos em viagens e em São Paulo também. E é a história que entrega o valor de cada peça. “Sempre gostei de comprar objetos, principalmente manufatura local. É como se eu conseguisse trazer um pedaço daquele lugar para a minha casa. A Antônio surgiu da vontade de buscar mais histórias, conhecer pessoas e levar isso para a casa delas”. Não à toa, são as experiências do casal dentro desse espaço que transformam o apê alugado em um autêntico lar: “As lembranças que trouxemos dessas vivências fazem com que sejamos transportados para nossas memórias e histórias nessa casa”, conta Manoel.

Nesse apê que já simpatiza por seus cobogós redondinhos, os moradores definem o espaço de cada um, aproveitando o lar às suas maneiras. O Manoel se reconecta com as viagens e outras culturas que conheceu, enquanto busca inspiração para sua loja nas obras espalhadas pela casa. O Cainã faz do apartamento um lugar para o bem-estar: pratica yoga, lê e toma sol pelas manhãs. E mesmo assim, o “nós” prevalece em outros detalhes… um deles é a vista das copas das árvores na Praça da República, perfeita para acompanharem juntos o nascer do sol ou ouvir os passarinhos cantarem, mesmo que em meio ao caos do centro de São Paulo.

Texto por Natália Pinheiro | Fotos por Maura Mello