Foi na comemoração do aniversário de seu ex-chefe, no bairro da Bela Vista, que o empreendedor Leeward se deparou com uma placa de “vende-se” em uma casa que chamou a sua atenção. Como ele estava à procura de um novo lar e já gostava da região, o simpático sobrado com ares do Bixiga pareceu uma sorte grande. E foi mesmo: cinco anos depois – com uma boa reforma e muitas histórias na conta – ele não apenas vive em uma casinha pra lá de aconchegante, como a transformou em uma moradia coletiva, onde diferentes pessoas contribuem para deixá-la cada vez mais interessante.

É verdade que, na época da compra, o imóvel estava bem deteriorado devido à ausência de moradores nos dois anos anteriores, mas ainda assim era possível notar uma estrutura sólida e muito bem-feita, com boa entrada de luz nos cômodos e um desenho que revelava imenso potencial. “A primeira impressão foi muito boa e apontava sinais de This must be the place”, brinca Lee, como é chamado pelos amigos. Apesar da reforma desafiadora que tinha pela frente, o empresário pôde contar desde o início com a ajuda de sua amiga Marina, criadora do escritório de arquitetura Entre Escalas, que ficou responsável pela transformação.

Juntos, Lee e Marina passaram por alguns imprevistos, como precisar trocar de empreiteiro durante a reforma, mas acima de tudo, conseguiram construir ambientes acolhedores recuperando elementos originais da casa, como as escadas, os caixilhos e os pisos de madeira. Com a premissa de aproveitar os materiais já existentes no projeto, algumas paredes foram descascadas para revelar a estrutura de tijolos, que, na área social permaneceu na cor natural, mas no quarto recebeu tinta branca para criar um espaço mais neutro. Ao fim das obras, a maior intervenção em relação à construção antiga se deu na área em que foram aplicados cimento queimado e ladrilhos hidráulicos.

Como principal referência na decoração, Lee se recorda do apartamento de sua ex-chefe, com quem trabalhou por 5 anos: “Gosto muito de como ela cuidou do espaço, do vazio, de saber ter poucas e boas coisas. Além de seu apê, também me inspirei em diversos lugares, como restaurantes, lojas e casas de amigos”, diz. Quanto aos itens da casa, o morador adquiriu um gosto especial pelas peças originais que permaneceram e foram reaproveitadas, como a luminária na entrada, as cadeiras da varanda, sua poltrona e as mesinhas do bar.

Quando de fato se mudou para o endereço, em 2016, Lee passou os primeiros seis meses morando sozinho, explorando seu novo ambiente e permitindo que ele e a casa se adaptassem um ao outro. Depois desse tempo, o sobrado tornou-se um lar coletivo, recebendo outros moradores temporários. “A rotina é dinâmica e altera conforme os hóspedes. Já recebemos 6 pessoas diferentes! Acredito que a parte mais legal de convívio é a cozinha, pois pessoas que gostam de comer sempre são as melhores”, conta Lee, que não esconde seu apreço pela gastronomia. Para ele, o gosto pela agricultura e culinária, além de ser uma herança familiar, acabou levando à criação da Kiro, sua marca de bebidas que reúne sabor, saúde e sustentabilidade.

Na casa, a relação com a natureza também é fácil de se notar: nos fundos do terreno, plantas povoam o muro de arrimo, que revela um corte de terra típico da região da Bela Vista e Bixiga; e as aberturas da reforma permitem que o jardim e a área interna estejam sempre em interação. Do lado da rua, a fachada cumpre bem o papel de situar o endereço na cidade de São Paulo: ladrilhos coloridos contrastam com as pichações, configurando uma típica paisagem paulistana. Sobre sua relação com a morada, Lee deixa o recado com as palavras de Mia Couto: “O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora”.

Fotos por Luiza Florenzano