A arquitetura limpa, mas ao mesmo tempo repleta de atrativos, foi essencial na criação do lar da Tati e do Léo. Mesmo vazio, o apartamento já teria personalidade devido ao projeto, porém os moradores conseguiram elevar ainda mais o visual dos espaços usando peças que já possuíam, objetos das mais diversas origens e pequenos achados em viagens – até pedras fazem parte da decoração espontânea inventada por eles. Cada pequeno detalhe ajuda a compor a casa do jeitinho que o casal queria: com aconchego de sobra, ambientes amplos e uma linguagem minimalista, sem perder o calor.

Nem totalmente integrada, nem totalmente isolada, a cozinha se conecta com a sala de forma pouco óbvia, por meio de rasgos estratégicos na parede. Um deles fica logo à frente do fogão, então é possível cozinhar espiando o que acontece do outro lado. Um segundo mostra trechos da prateleira de concreto da mesa de jantar: “O gato adora perambular por ali, atravessando os ambientes”, Tati diz. Antes da reforma essa área com as plantas era parte da lavanderia, porém agora que foi incorporada à cozinha, virou um canto gostoso para tomar uma xícara de café pela manhã, cuidar dos vasos e sentir o sol nascente.

Após anos vivendo no apê antigo, onde a cozinha era bonita, mas pouco funcional, Tati e Léo quiseram priorizar a criação de armários e a entrada de luz natural. Foi assim que os arquitetos Felipe Hess e Lucas Miilher tiveram a ideia de usar tijolos laminados de 21 furos pintados de branco fazendo as vezes de cobogós. Como as peças são perfuradas, elas otimizam a iluminação e a ventilação, e deixam à vista parte dos ambientes de modo bem discreto. “É justamente este olhar sofisticado para materiais mais simples que nos atraiu. Por exemplo, a ardósia usada nas bancadas dos banheiros e da cozinha”, o casal explica. No lavabo, outra surpresa – a pia de pedra rústica veio de uma viagem à Minas Gerais e foi inserida no espaço.

A reforma também foi intensa no quarto do casal e tudo ali foi mudado. Aproveitando a deixa da obra, eles criaram um banheiro e um closet que não existiam originalmente. “Adoramos a forma como tudo se integra, sem isolar. O tijolo de 21 furos também está presente, permitindo a passagem da iluminação. Nesse cômodo, queríamos ter o essencial, sem exageros, e que a arquitetura falasse mais que a decoração”, contam. Como a parede divisória não vai até o teto, deu para aproveitar a parte de cima para cultivar mais plantas, para alegria de Léo – o jardineiro oficial da casa.

Os moradores completaram o espaço com itens de afeto que remetem a bons momentos, como os quadros acima da cama. “Um deles foi uma intervenção do Léo com a frase do poeta romântico Gonçalves Dias sobre uma antiga pintura de uma praia. Foi uma das primeiras peças que ele comprou quando chegou à São Paulo, de um vendedor de rua. Segundo ele, remete aos coqueiros e praias do Rio de Janeiro deixado para trás com a mudança, e representa uma ruptura para a nova fase paulistana da vida. Tem uma coisa também do gasto, da ação do tempo, das cores já esmaecidas. Um saudosismo romântico do que já foi. O outro quadro é uma foto tirada por ele em nossa viagem para o Uruguai, um lugar que adoramos. Os 2 quadros, lado a lado, parecem completar, de alguma forma, uma terceira paisagem”, Tati fala.

No quarto de Matias, a decoração traz um apanhado de coisas colecionadas pelos pais. Muitos dos brinquedos e livros foram da Tati ou do Léo durante a infância, e na parede estão dois quadros pintados pelo morador quando ele não tinha nem 10 anos ainda. Os barcos e a gaivota de madeira foram comprados em uma viagem feita logo após a descoberta da gravidez, então também são especiais, e o círculo colorido na parede foi pintado pelo casal. Na verdade, tudo tem uma história: o quadrinho de colagem com o nome do Matias, feito por Léo para a porta da maternidade; os penduradores das mochilas comprados no museu M.A.R, do Rio de Janeiro; quadros de artistas e amigos… o que se vê hoje no quartinho é uma mistura de muitos momentos da vida da família – e sempre há espaço para novas memórias. “Queremos que o quarto do Matias seja um ambiente estimulante para ele, sem ser muito temático. Que tenha coisas curiosas, cores ou objetos com alguma historinha. Queremos estimular a criatividade dele”, o casal diz.

De muitas maneiras diferentes, algumas sutis e outras mais visíveis, o apartamento reacende memórias de infância do casal. Tati conta que herdou de sua mãe – a rainha da organização – um pouco desse olhar. E Léo lembra que o piso da casa de seus avós também era de granilite, e que sempre cresceu ao redor das plantas. “Na verdade, são lembranças de casa de comidinha bem-feita, das coisas cuidadas com carinho, com amor”, eles falam. E é isso o que o casal busca fazer: transformar o apê em um lugar de histórias.

Fotos por Luiza Florenzano