Até poucos anos atrás, quem entrasse nesse sobrado na Pompeia nunca imaginaria que ele poderia se tornar um lar tão agradável, iluminado e aconchegante. Na época, o lugar era habitado por uma aviadora aposentada que vivia com 20 cachorros e não reformava a casa há um bom tempo, então alguns espaços beiravam a precariedade. Porém, tudo mudou quando a arquiteta e designer Maria Cau cruzou com o imóvel e decidiu que ali seria sua nova morada. Ao lado da equipe do Goma Oficina, coletivo de arquitetos e artistas do qual faz parte, ela revitalizou totalmente o sobrado e criou ambientes cheios de referências bacanas.

“O principal objetivo da reforma era iluminar a casa ao máximo”, Maria Cau explica. Para isso, os arquitetos procuraram melhorar a planta original, ampliando os espaços e criando novas entradas de luz natural. O corredor lateral, por exemplo, recebeu uma cobertura de vidro e foi incorporado à sala e à cozinha. “Nos fundos, demolimos a pequena edícula onde ficava a antiga lavanderia para ganharmos mais luminosidade”, ela completa. Sem a construção anexa, que acabava escurecendo bastante a cozinha, foi possível criar até um jardim com piso de seixos e uma trepadeira que aos poucos irá tomar conta da parede.

Pouco tempo depois de se mudar para a casa, Maria Cau convidou uma amiga de infância para ser sua roommate e ocupar o segundo quarto do sobrado. Essa amiga é a figurinista Gabi, que também pertence a um coletivo artístico, o Ateliê Vivo. Como ambas estão no meio criativo, elas trocam muita ideia sobre dinâmicas de grupo e trabalho horizontal, então a convivência acaba sendo rica no compartilhamento de referências. “É muito bom poder dividir experiências – e a casa – com alguém que, como eu, tem esse pensamento de coletividade”, a arquiteta diz.

Segundo as moradoras, a decoração não chega a ser uma coisa pensada, ela vai sendo construída com presentes de amigos e objetos guardados com carinho. As bancadas da cozinha, por exemplo, a princípio foram montadas com estruturas temporárias de cenografia, enquanto as amigas esperavam juntar dinheiro para fazer a marcenaria da casa. Quando chegou a hora de criar os armários definitivos, elas chamaram a dupla Vitor Pena e Guilherme Tanaka para desenhar os móveis usando madeira e compensado naval, e hoje amam o resultado.

Seria impossível desassociar o trabalho das moradoras de sua casa, então os espaços trazem muitas das criações de Maria Cau e Gabi. “Eu sou artista gráfica e arquiteta, e estudo padrões geométricos. Nas paredes, coloco protótipos de peças e estudos de estampas que realizei. A Gabi faz renda de bilro e é uma grande artista. Ela traz pequenos bibelôs e objetos que significa na composição e na disposição deles pela casa”, a arquiteta conta. Por isso, as paredes e estantes estão sempre mudando, recebendo novas peças colecionadas ou trabalhos que vão ficando prontos, sem muita regra. “Eu sinto como se cada canto fosse um altar diferente. Os objetos têm o sentido emocional que a gente atribui a eles. São lembranças vivas que fazem a casa ser nossa extensão afetiva”.

Fotos por Luiza Florenzano