Uma casa e todas as memórias que ela guarda não podem ser resumidas de uma vez só, então por aqui fazemos diferente. Ao invés de concentrar todos os detalhes e fotos em uma única matéria, criamos pequenos capítulos para que você possa curtir essa visita durante vários dias. É só acompanhar a ordem pelo título dos posts e apreciar o passeio sem se preocupar com o relógio.

Um apartamento com clima de casa. Essa era a principal vontade da psicóloga e psicanalista Camila ao montar um lar com seu marido. Por sorte, o apê que o casal encontrou em um prédio antigo no bairro Higienópolis tem muitos elementos que trazem essa sensação: o edifício fica em uma esquina e as janelas estão na altura das árvores, então toda a sala é presenteada com luz natural e o verde emoldurado do lado de fora. Além disso, os materiais com toque rústico usados na reforma idealizada pelo Estúdio BRA também reforçam o aconchego, como tijolinho pintado de branco, cimento queimado e madeira.

À primeira vista, o apê estava longe de ser a casa dos sonhos. Os espaços eram muito escuros, assim como o piso, e as instalações estavam em mau estado. A cozinha ocupava parte da sala atual de um jeito estranho, e a área de serviço era desproporcionalmente grande. Para completar, todos os ambientes possuíam muitos armários, antigos e bem profundos, e isso causava uma sensação quase claustrofóbica – para se ter uma ideia, até a varanda tinha armários. É difícil imaginar o apartamento nessas condições, já que hoje ele é amplo, luminoso e convidativo, mas foi graças à reforma que ele adquiriu todas essas qualidades.

“Como já íamos fazer melhorias na parte de elétrica e hidráulica, resolvemos chamar os arquitetos André e Rodrigo para um projeto maior, com as mudanças que desejávamos. Somos amigos e já conhecia o trabalho deles”, a moradora diz. Ao todo, a reforma durou nove meses – tempo suficiente para repaginar cada canto do apê. No meio do quebra-quebra, um fato curioso digno de filmes de detetive: ao tirar um armário antigo do lugar, a equipe descobriu um cofre embutido na parede atrás de um fundo falso. “Todos tentaram abrir, até que um dos funcionários da obra fez uma combinação e o cofre se abriu! Nele havia uma nota de 1 dólar!”, Camila lembra.

Para deixar a sala tão espaçosa, o casal abriu mão de um dos quartos e deslocou a cozinha para a antiga área de serviço, que ficou menor e passou a ocupar o dormitório de funcionários. Os moradores queriam texturas bem acolhedoras, como a madeira, então os arquitetos criaram um grande painel que camufla as portas de passagem e também um pequeno home office – quando todas as portas se fecham, o visual fica minimalista. Camila e o marido gostam muito de móveis brasileiros, e nessas peças a madeira também tem um grande papel, como nas cadeiras Girafa, de Lina Bo Bardi.

Outro detalhe importante na sala é o teto arredondado, uma ideia ousada do Estúdio BRA inspirada em espaços visitados pelo casal durante uma viagem especial a Portugal. “Além dessa referência, trouxemos de lá dois azulejos do séc. XVII e as luminárias de parede. De Paris veio outra luminária que fica na estante, e do MoMA, em Nova York, uma fruteira. Sempre trazemos algo das viagens”, falam. Itens de arte popular não ficam de fora e os moradores se orgulham de seus garimpos, de máscaras africanas a animais esculpidos por tribos indígenas. Tudo acomodado com carinho na grande estante metálica desenhada pelos arquitetos.

A escolha dos acabamentos neutros e dos espaços brancos não foi por acaso. Os moradores acreditam que assim as cores dos livros e objetos viram protagonistas na casa. “Em cada parte, temos coisas que lembram a personalidade de cada um. Tanto nas estantes, no meu caso com os livros de Freud e Lacan, como os temas de que meu marido gosta: fotografia, arquitetura…”, Camila conta. * Gostando do clima desse apartamento? Então fique ligado para conferir outras fotos no Capítulo 2.

Fotos por Maura Mello

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