Julia é diretora de criação e também uma artista sensível que descobriu que tudo pode ter um ponto positivo, até mesmo a tristeza. Além de seu projeto Tristezinha do Bem, ela tem um apê delicioso em Pinheiros compartilhado com Berenice, sua fiel escudeira canina. Leia o Capítulo 1 dessa história!

… Foi no meio de uma fase difícil que Julia reencontrou seu potencial. Para afastar os problemas, certo dia ela decidiu rabiscar suas paredes com um canetão rosa-choque. Depois partiu para os copos, a mesa, os lençóis… Isso aconteceu no apartamento que ela alugava alguns anos atrás, mas esse hábito a acompanha desde então. No endereço em que vive hoje, poesias, desenhos e lembretes cotidianos compartilham o mesmo espaço, as paredes. É quase como uma terapia: “É uma forma de eu me manter perto de mim. Quando estou indo para longe de mim mesma, me leio na parede e volto rapidinho”.

Para ela, morar sozinha faz toda a diferença. A liberdade de mudar as coisas sempre que tiver vontade e de fazer o que quiser conta muito, porém o silêncio também é importante para Julia, que gosta de “ouvir” a cidade dormindo durante a madrugada. Quando a ideia é bagunçar e se divertir, basta enviar algumas mensagens que a casa logo fica cheia de amigos.

O quarto, que já teve paredes pretas um tanto opressoras, agora está pintado de azul em um tom leve e feliz. Sobre uma base de pallets, a cama baixinha convida a moradora a se esparramar aproveitando o sol da tarde – a Berenice, é claro, vai junto e ainda se esconde debaixo do edredom. Como o restante do apê, esse cômodo tem jeito de improviso, o que talvez explique o fato dele ser tão aconchegante. Ao invés de um criado-mudo convencional, uma caixa de madeira dessas usadas para transportar obras de arte; no lugar de um revisteiro, uma cestinha de supermercado antiga; em vez de ficarem em uma estante, os livros ocupam o peitoril da janela… É tudo meio assim: bonito sem precisar de muito esforço.

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Julia ainda está descobrindo sua vocação, mas já sabe que ter um pequeno universo criado por ela mesma e para ela mesma é sinal de estar seguindo pelo caminho certo. Além disso, esse mundo é compartilhado com pessoas e seres queridos, como as plantas que cultiva e a vira-lata de estimação. A chegada da Berenice, aliás, coloriu ainda mais a rotina e hoje as duas são inseparáveis.

“Minha casa representa a minha calma. Ou a calma que tenho ou a calma que busco. Vou me ensinando a partir da arte que faço. Desenho para ficar menos triste, ter menos saudade, ser ainda mais feliz… E como todo mundo tem esses dois lados opostos, acabam se identificando. Aprendi que quando você compartilha algo genuíno, ao poucos vai fazendo a diferença na vida das pessoas, e isso é lindo!”.

Fotos por Rafaela Paoli